O aquecimento global vem alterando, de forma cada vez mais evidente, a viticultura na Borgonha. Verões mais quentes e secos, ondas de calor, invernos mais amenos e um ciclo vegetativo progressivamente antecipado passaram a fazer parte da realidade dos produtores. Ao contrário do que muita gente imagina, os impactos vão muito além das altas temperaturas. São brotações precoces que aumentam o risco de geadas de primavera, além de maturações em condições significativamente diferentes daquelas que, durante séculos, ajudaram a moldar o estilo dos vinhos da região.
Entre tantas variáveis para medir as mudanças climáticas na Borgonha, há um indicador particularmente interessante. Pela sua objetividade e, sobretudo, pela possibilidade de compará-lo ao longo de muitos séculos, a data de início da colheita talvez seja a melhor forma de entender o que mudou na Borgonha. Afinal de contas, as videiras respondem às condições meteorológicas acumuladas ao longo de seu ciclo e, quanto mais rapidamente completam suas diferentes etapas de desenvolvimento, mais cedo tendem a atingir a maturidade. Em regiões com registros históricos suficientemente longos, a data da colheita funciona, portanto, como uma importante medida das mudanças climáticas. E poucas regiões no mundo oferecem uma profundidade de dados tão extraordinária para essa análise quanto a Borgonha.
Batendo recordes
A safra de 2026 foi extrema. Em Beaune, a colheita começou em 16 de agosto, preocupante mesmo para uma região que, nas últimas décadas, já registra vindimas cada vez mais antecipadas. Quando colocada em perspectiva histórica, porém, a informação se torna ainda mais impressionante. É preciso voltar quase cinco séculos, até 1556, para encontrar um registro equivalente, também em meados de agosto. Naquele ano, uma primavera excepcionalmente quente e seca acelerou dramaticamente o ciclo da videira.
O ponto mais interessante, portanto, não é apenas constatar que 2026 foi uma safra extremamente precoce. Eventos climáticos excepcionais já produziram vindimas muito antecipadas no passado. A questão é entender se 2026 representa apenas mais uma dessas anomalias ou se, ao contrário, aparece como parte de uma tendência de longo prazo. Para tentar responder a essa pergunta, a Borgonha oferece algo muito raro: a possibilidade de viajar quase sete séculos no tempo.
Uma máquina do tempo
O vinho da Borgonha possui uma riqueza de dados extraordinária. Durante séculos, a importância econômica, social e religiosa de seus vinhedos levou autoridades locais, instituições religiosas e proprietários a registrar dados como em poucas partes do mundo. São informações sobre o início das vindimas, pagamentos a trabalhadores e inúmeros outros dados relacionados à produção de vinho. A partir desse conjunto documental, uma equipe liderada pelo pesquisador Thomas Labbé conseguiu reconstruir uma série praticamente contínua das datas de início da colheita em Beaune desde 1354, o que a torna uma das mais longas séries homogêneas de vindimas disponíveis no mundo.
O trabalho não consistiu simplesmente em reunir datas antigas. Os pesquisadores cruzaram diferentes tipos de documentos e corrigiram as mudanças metodológicas ocorridas ao longo dos séculos para tornar os períodos comparáveis. O resultado é uma base excepcional para observar não apenas anos extremos, mas, principalmente, transformações de longo prazo. E é justamente quando deixamos de olhar para safras isoladas e passamos a analisar séculos, décadas e médias móveis que algo chama a atenção. Durante centenas de anos, apesar das oscilações de uma safra para outra, a data média da colheita permaneceu surpreendentemente estável. A grande ruptura surge apenas recentemente.
Uma série histórica de mais de seis séculos
O trabalho de Thomas Labbé, publicado em 2019, reconstruiu uma série temporal homogênea das datas de início da colheita em Beaune entre 1354 e 2018. Ele utilizou fontes históricas, como registros administrativos, documentos ligados ao ban des vendanges (autorização oficial que determina a data a partir da qual os viticultores podem iniciar a colheita), pagamentos a trabalhadores e outras referências, que permitiram identificar quando a vindima começou em cada ano.
Para atualizar essa linha do tempo, os dados posteriores foram complementados ano a ano. Entre 2019 e 2024, utilizamos a atualização fornecida pelo próprio Thomas Labbé e publicada pelo jornal francês Le Monde, mantendo o mesmo critério de referência para Beaune. Para 2025 e 2026, a série foi estendida com dados específicos do início da colheita em Beaune, utilizando as datas de 25 de agosto de 2025 e 16 de agosto de 2026. O resultado é uma sequência contínua de 1354 a 2026, que permite observar não apenas anos extremos, mas, sobretudo, como a média de início da colheita se deslocou ao longo do tempo.
Séculos de estabilidade, ruptura recente
Ao analisar as tendências de longo prazo, ao longo dos séculos, o primeiro aspecto que chama a atenção é a enorme estabilidade. Entre o século XIV e o século XX, a data média de início das vindimas em Beaune permaneceu concentrada no final de setembro. A data média foi 29 de setembro entre 1354 e 1399, 27 de setembro no século XV, 26 de setembro no XVI, 28 de setembro no XVII, 26 de setembro no XVIII, 30 de setembro no XIX e novamente 27 de setembro no século XX. Existem, naturalmente, safras individuais extremamente precoces ou tardias em todos esses períodos, mas elas pouco alteraram o comportamento médio de longo prazo.

É somente no século XXI que aparece uma ruptura realmente significativa. Considerando as 27 safras entre 2000 e 2026, a data média de início da colheita recua para aproximadamente 9 de setembro, entre 17 e 21 dias antes das médias dos séculos anteriores. O contraste é particularmente relevante porque mostra que não estamos simplesmente comparando 2026 com uma época do passado escolhida arbitrariamente. Durante mais de seis séculos, apesar de enormes transformações sociais, técnicas e econômicas na Borgonha, a data média das vindimas permaneceu surpreendentemente estável.
Das décadas ao início da mudança
Quando mudamos o foco de séculos para décadas, fica mais fácil identificar quando a mudança começa. Durante grande parte do século XX, as médias continuam próximas do padrão histórico: 27 de setembro nos anos 1900, 26 de setembro nas décadas de 1910 e 1920, 2 de outubro nos anos 1930, 25 de setembro nos anos 1940, 30 de setembro nas décadas de 1950 e 1960, 27 de setembro nos anos 1970 e 25 de setembro nos anos 1980. Até esse momento, portanto, não existe uma trajetória consistente; safras precoces e tardias continuam se alternando dentro de um padrão relativamente estável.

A mudança torna-se evidente a partir dos anos 1990. A média passa para 19 de setembro naquela década, cai para 13 de setembro entre 2000 e 2009 e chega a 11 de setembro entre 2010 e 2019. Nas sete safras já realizadas da década atual, entre 2020 e 2026, a média está em aproximadamente 2 de setembro. Em pouco mais de três décadas, portanto, o início médio da colheita avançou em mais de três semanas em comparação com os anos 1980. Mais do que uma ou outra safra fora do padrão, é essa sequência que evidencia uma transformação estrutural.
Eliminando o ruído: a média móvel de dez anos
Uma terceira maneira de olhar para os mesmos dados é utilizar uma média móvel de dez anos. Diferentemente das décadas fixas, esse cálculo considera, para cada ano, as dez safras imediatamente anteriores, reduzindo o peso de eventos isolados e permitindo acompanhar a evolução de forma mais contínua. Em 1989, essa média ainda correspondia a cerca de 25 de setembro. Em 1999 havia avançado para 19 de setembro, em 2009 para 13 de setembro e, em 2019, para 11 de setembro.

A aceleração torna-se ainda mais evidente nos anos seguintes. A média móvel caiu para cerca de 8 de setembro em 2020, retornou temporariamente a 10 de setembro em 2021, passou novamente a 8 de setembro em 2022, a 6 de setembro em 2023 e 2024, a 5 de setembro em 2025 e chega a aproximadamente 2 de setembro em 2026. É este ponto que deve ser analisado de perto: a vindima de 16 de agosto de 2026 é excepcional, mas ocorre em um contexto em que a própria referência do que seria uma data “normal” vem sendo continuamente antecipada.
Muito além de um recorde
Olhar apenas para 16 de agosto de 2026 poderia levar à conclusão de que a Borgonha simplesmente viveu mais uma safra meteorologicamente única, como ocorreu em algumas ocasiões ao longo de sua longa história. Os dados, porém, sugerem algo diferente. O paralelo com 1556 é fascinante justamente por evidenciar a diferença entre os dois momentos. Naquela época, uma colheita em meados de agosto destoava completamente da realidade dos séculos que a cercavam. Hoje, uma data semelhante surge como parte de um movimento de colheitas que vem avançando progressivamente.
O dado mais importante, portanto, talvez não seja o recorde de 2026, mas a tendência, tanto de longo prazo quanto de médio e curto prazo. Em poucas décadas, o início da safra em Beaune deixou de ocorrer no final de setembro e passou a ocorrer no início do mês. Isso não significa que todas as safras futuras serão precoces, nem elimina a possibilidade de anos frios ou tardios. Mostra, porém, que o contexto climático em que essas variações ocorrem mudou significativamente. E, se o calendário da videira está mudando, a próxima questão é inevitável: até que ponto a própria viticultura e os estilos de vinho que conhecemos da Borgonha também terão de mudar?
Fontes: The Longest Homogeneous Series of Grape Harvest Dates, Beaune 1354–2018, and Its Significance for the Understanding of Past and Present Climate, Thomas Labbé et al., Climate of the Past; Euro-Climhist Database, University of Bern; La date des vendanges à Beaune, témoin du dérèglement climatique,Le Monde; 165e Vente des Vins des Hospices de Beaune, Hospices de Beaune; Vendanges 2026 : les premiers coups de sécateurs dans les vignes du domaine des Hospices de Beaune, Info-Beaune.
Imagem: Arquivo pessoal
Gráficos: Gerados por IA com ChatGPT