Gut Oggau é uma das referências do vinho natural na Áustria, combinando agricultura biodinâmica, fermentações espontâneas e mínima intervenção na adega. Localizada em Oggau (Burgenland), a vinícola foi assumida por Eduard Tscheppe e sua esposa, Stephanie, em 2007. Cultivam atualmente cerca de 16 hectares, com produção anual de aproximadamente 50 mil garrafas. Seus vinhos compõem uma “família”, dividida em três gerações. Os mais jovens, provenientes principalmente de áreas planas, apresentam a energia da juventude; a geração dos pais, relacionada sobretudo aos vinhedos das encostas; e os avós, com vinhedos mais antigos e vinificação diferenciada. Em visita recente, provei seis vinhos, boa parte deles da safra 2024, precedida por uma bebida não alcoólica produzida com plantas cultivadas na propriedade.
A Gut Oggau adota uma abordagem em que a origem dos vinhedos é mais importante do que a identidade individual das variedades de uva. Na vinificação, a fermentação ocorre principalmente em tonéis de carvalho, sem remontage nem pigeage. Isso favorece uma extração suave, que Eduard descreve como uma espécie de infusão. Os vinhos permanecem em contato com suas lias, geralmente sem trasfegas intermediárias, com engarrafamento sem clarificação, filtração ou adição de sulfitos.
Gut Feeling, bebida não alcoólica
A degustação começou com o Gut Feeling, uma bebida não alcoólica elaborada a partir de plantas e ervas cultivadas na propriedade. Entre elas estão espécies também utilizadas em preparações biodinâmicas, como camomila, urtiga e outras plantas medicinais. Segundo Eduard, as ervas passam por infusão e fermentação natural, produzindo uma bebida levemente efervescente. A composição inclui água e mel (proveniente de colmeias próprias), adicionado para conferir textura e equilíbrio. Divertida e saudável, a um preço de cerca de € 19 na vinícola.
Atanasius 2024, 11,5%
O Atanasius pertence à geração mais jovem da família e é um corte de Zweigelt e Blaufränkisch, proveniente de vinhedos em áreas mais planas. Na vinificação, desengace parcial, fermentação natural, três e quatro semanas de maceração e estágio de 11 a 12 meses em grandes barris usados de carvalho. Um vinho direto, com frescor, verticalidade, energia e um caráter quase mediterrâneo, com especiarias, fruta contida, corpo médio e taninos suaves. € 29.
Timotheus 2024, 12,5%
Integrante da geração dos pais, Timotheus é um corte de Grüner Veltliner e Weissburgunder (Pinot Blanc), provenientes de vinhedos situados nas encostas de Oggau, com orientação leste e sudeste. São vinhas velhas, com cerca de 45 anos, em solos de calcário e xisto, com um terço das uvas submetido à maceração durante três semanas. Apresentou notas fenólicas mais intensas do que as de um branco elaborado exclusivamente por prensagem direta, mas com olfato e paladar mais delicados do que os de um vinho laranja “tradicional”. Com boa acidez e corpo médio a alto, trouxe mais profundidade e estrutura, além de notas cítricas, herbáceas e levemente salinas. € 46.
Cecilia 2025, 12%
Rosé elaborado com Weissburgunder, Welschriesling, Blaufränkisch e Muskat, provenientes de um vinhedo co-plantado (Gemischter Satz) com aproximadamente 45 anos, em solos predominantemente calcários. Introduzido na família em 2021, na vinificação houve desengace parcial das uvas, com 10 dias de maceração, enquanto a outra parcela seguiu para prensagem direta. Um rosé “mais sério”, com mais estrutura, em contraste com os rosés elaborados para privilegiar apenas os aromas primários e o consumo rápido. Com boa acidez e taninos discretos, apresentou notas cítricas (grapefruit e limão), de frutas vermelhas silvestres e de melancia, com muita energia e salinidade. € 46.
Eugenie 2025, 11%
Diferentemente dos demais rótulos degustados, elaborados com variedades tradicionais de Vitis vinifera, Eugenie utiliza variedades híbridas. As videiras foram plantadas pela própria família a partir de 2018, em um vinhedo situado num platô com solos de xisto e quartzo. Um vinho mais discreto aromaticamente, com notas cítricas, de ervas secas e de frutas de caroço, porém com muito frescor, estrutura vertical no paladar e um toque mais selvagem. €48.
Josephine 2024, 12%
Corte de Rösler e Blaufränkisch, pertencente à geração dos pais. Tem origem em uvas de vinhedos com cerca de 35 anos, situados em encostas sobre solos calcários. A fermentação ocorreu em um tonel Stockinger de 3.000 litros, seguida de um estágio de 18 meses. Em comparação com o outro tinto, Atanasius, mostrou maior profundidade e complexidade, com taninos finos, frutas maduras, toques de especiaria e salinidade, mantendo o frescor. € 46.
Bertholdi 2024, 12%
Bertholdi representa o avô da família e provém de algumas das videiras mais antigas da Gut Oggau, com cerca de 70 anos, cultivadas num platô situado a 300 metros de altitude, em solos de calcário e xisto. É um monovarietal de Blaufränkisch, cuja vinificação difere daquela empregada na maior parte da produção da vinícola. As uvas foram prensadas em uma prensa histórica, com quase 200 anos de idade, e fermentadas com cachos inteiros, em recipiente aberto de madeira, por 14 dias de maceração. Posteriormente, o vinho passou 20 meses em um barril Stockinger de 500 litros.
Aqui, uma expressão do estilo mais tradicional da Blaufränkisch em Burgenland, com muita concentração, textura e profundidade. Olfativo intenso, marcado por frutas negras, notas herbáceas e um toque terroso, com boa acidez, corpo médio a alto, taninos presentes e final longo e envolvente. Um vinho que necessita de mais tempo em garrafa para revelar sua melhor expressão. € 85.