A Itália é a origem do maior número de variedades autóctones no mundo e, nas últimas décadas, não faltam esforços para resgatar diversas cepas que perderam espaço. Um caso simbólico é o da Ciliengiolo, uva com relação próxima, porém controvertida, com a Sangiovese. Com longa história na Toscana, seu papel na viticultura local variou ao longo do tempo; porém, nas últimas décadas, vem vivendo um renascimento. Um grupo crescente de produtores passou a apostar em seu potencial qualitativo, sobretudo na sub-região da Maremma.
O nome desta variedade remete a outra fruta. Ciliegia é a palavra italiana para “cereja”, que apresenta coloração semelhante à da uva e também compartilha componentes aromáticos. Para quem não conhece, a Ciliegiolo dá origem a vinhos com alta expressão de frutas, taninos geralmente macios e grande versatilidade gastronômica. Essas qualidades contribuíram para que a variedade voltasse a despertar o interesse de produtores e apreciadores de vinhos em busca de novas experiências.
História e origem da variedade
As origens da Ciliegiolo permanecem incertas e são objeto de diferentes interpretações históricas. Uma tradição difundida no passado afirma que a variedade teria chegado à Itália por peregrinos que regressavam do Caminho de Compostela, na Espanha. Essa hipótese, mencionada em fontes ampelográficas do século XIX, explicaria também um dos sinônimos históricos da variedade, Ciliegiolo di Spagna.
Independentemente dessa narrativa, há registros que indicam a presença da variedade na Toscana pelo menos desde o final do século XVI. O agrônomo Giovan Vettorio Soderini menciona a uva em escritos de 1590. Também existem referências indiretas do século XVII associadas a Galileo Galilei, que também era produtor de vinhos. Em uma correspondência, o cientista toscano teria solicitado a um fornecedor o envio de barris de um vinho descrito como “excelente Ciliegiolo”, o que evidencia a reputação da variedade já naquele período.
A relação genética com a Sangiovese
Nas últimas décadas, porém, a discussão sobre a origem da Ciliegiolo passou a concentrar-se sobretudo em sua relação genética com a Sangiovese, uva-símbolo da Toscana. Durante muito tempo, a hipótese aceita sustentava que a Ciliegiolo poderia ser um dos “pais” da Sangiovese. Essa interpretação tinha fundamento em estudos genéticos iniciais realizados no início dos anos 2000, quando as primeiras análises de DNA começaram a ser aplicadas ao estudo das variedades italianas.
Nesse momento, acreditava-se que a Sangiovese resultaria do cruzamento entre Ciliegiolo e uma variedade do sul da Itália, a Calabrese di Montenuovo. Essa hipótese ganhou grande difusão na literatura vitícola e permaneceu por muitos anos como a explicação mais citada para a genealogia da Sangiovese. Com o avanço das técnicas de análise genética, porém, a relação entre Sangiovese e Ciliegiolo passou a ser vista de outra forma.
Estudos posteriores identificaram inconsistências na hipótese anterior e sugeriram que a relação de parentesco entre as duas variedades seria, na verdade, o inverso do que havia sido proposto. Pesquisas recentes indicam que a Ciliegiolo poderia, na realidade, ser descendente da Sangiovese, e não sua progenitora. Uma contribuição importante para esse debate veio de um amplo estudo publicado em 2021, que concluiu que a Ciliegiolo provavelmente resulta do cruzamento entre a Sangiovese e o Moscato violetto, também conhecido como Muscat Rouge de Madère.
Renascimento depois de altas e baixas
Durante boa parte do século XX, a Ciliegiolo passou por uma fase de grande expansão na Itália, impulsionada principalmente por sua elevada produtividade e facilidade de cultivo. Nos anos 1960, a área plantada no país chegou a ultrapassar seis mil hectares, sendo amplamente utilizada para a produção de vinhos de corte ou para venda a granel. A partir das décadas seguintes, contudo, a área cultivada sofreu uma forte retração.
As estatísticas indicam uma queda progressiva e forte na área plantada, o que resultou em menos de mil hectares no início deste século. Este movimento, porém, se reverteu nas últimas duas décadas, sobretudo na Maremma. Um dos nomes de destaque deste renascimento, com a aposta em monovarietais, foi a vinícola Sassotondo. Na época, contando com o famoso enólogo Attilio Paglia, identificou, em um vinhedo chamado San Lorenzo, algumas vinhas velhas da variedade, com mais de sessenta anos de idade.
Em um período em que variedades internacionais como Cabernet Sauvignon e Merlot dominavam os novos plantios, Paglia sugeriu plantar Ciliegiolo nas parcelas recém-implantadas. A vinícola adotou a ideia e estabeleceu o vinhedo por meio de seleção massal. Este movimento despertou atenção de outros produtores e em 2025 a área plantada com Ciliegiolo na Itália superava 1.200 hectares, dos quais pouco menos de 50% na Toscana.
Características da Ciliegiolo
Do ponto de vista de cultivo, a Ciliegiolo apresenta maturação média-precoce e vigor médio a elevado. A variedade prefere climas relativamente secos e ventilados. Nessas condições, demonstra boa resistência à seca, algo importante na luta contra o estresse hídrico, embora seja sensível a ventos fortes e a geadas de primavera. Ela é particularmente sensível ao oídio, tem sensibilidade moderada ao míldio e certa suscetibilidade à botrytis. De forma geral, apresenta características agronômicas bastante favoráveis em regiões mediterrâneas.
Seus cachos são geralmente de tamanho médio a grande, com forma cilíndrica-piramidal. Os grãos apresentam dimensões médias e formato esférico, com coloração negro-violácea que lembra a de uma cereja. Na comparação com a Sangiovese, alguns produtores observam que a Ciliegiolo apresenta casca ligeiramente mais espessa e amadurece um pouco mais cedo.
Diversas expressões de vinhos
Os vinhos elaborados a partir da Ciliegiolo geralmente apresentam coloração rubi intensa, com reflexos que remetem à tonalidade da cereja. No plano aromático, predominam notas frutadas de cereja amarena e de outras frutas vermelhas, muitas vezes acompanhadas de notas florais e nuances especiadas. No palato, costuma resultar em teor alcoólico relativamente elevado, taninos macios e acidez moderada, o que contribui para uma sensação de maciez. Essa característica explica por que a Ciliegiolo tem uso frequente em cortes com a Sangiovese, cuja acidez mais marcada ajuda a equilibrar a estrutura mais redonda da primeira.
É uma variedade polivalente. Versões mais jovens, frequentemente com fermentação e com estágio em aço inox, privilegiam frescor e expressão frutada. Em vinhos com maturação mais longa, seja em tanques inertes ou em madeira, surge maior complexidade aromática, com notas de fruta madura e especiarias, além de uma estrutura mais ampla.
Ciliegiolo na Itália e no mundo
Embora historicamente presente em diversas regiões do centro da Itália, a Ciliegiolo permanece relativamente pouco cultivada em escala nacional. Dados recentes indicam cerca de 1.200 hectares cultivados no país, dos quais aproximadamente 566 hectares encontram-se na Toscana. Dentro da região, a província de Grosseto concentra mais da metade dessa superfície, o que confirma o papel central da Maremma na preservação da variedade. Outras regiões italianas onde a Ciliegiolo está presente incluem Umbria, Lazio, Emilia-Romagna, Molise, Sicília e Campania, embora em áreas significativamente menores. A variedade também aparece de forma marginal em regiões como a Ligúria, as Marche e o Abruzzo.
Fora da Itália, o cultivo da Ciliegiolo permanece limitado, mas há pequenas plantações experimentais em países como os Estados Unidos e a Austrália, reflexo do crescente interesse por variedades autóctones italianas. A Ciliegiolo conta com relativamente poucos nomes alternativos, como Morettone, Ciliegino, Ciliegiolo di Spagna e Aglianicone.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Consorzio Tutela Vini della Maremma Toscana; Consorzio Vino Chianti Classico; Associazione Nazionale del Vino Ciliegiolo; Vivai Rauscedo; Quattrocalici; Entrevista com Edoardo Ventimiglia, Sassotondo.
Imagem: Consorzio Tutela Vini della Maremma Toscana