Talvez você não saiba, mas Prosecco é hoje, de longe, o espumante mais consumido do mundo. E, por trás desse enorme sucesso, há uma escala difícil de ignorar. Somente a sua denominação de origem “de entrada”, a Prosecco DOC, superou, em 2025, a impressionante marca de 600 milhões de garrafas, mais do que o dobro da produção de Champagne no mesmo período. Porém, se a Prosecco DOC domina em volume, há outras duas denominações de origem que buscam maior diferenciação em termos de qualidade.
São elas Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore DOCG e Asolo Prosecco DOCG. Ambas ocupam áreas menores e estão predominantemente associadas às colinas, em contraste com a grande extensão territorial da Prosecco DOC e com seus muitos vinhedos localizados em áreas mais baixas e de fácil mecanização. Juntas, as duas DOCGs representam uma parcela relativamente pequena do enorme universo do Prosecco, mas concentram boa parte dos vinhos que procuram explorar com maior profundidade as diferenças de origem, de condições naturais e de viticultura.
Entre elas, Conegliano Valdobbiadene é de longe a maior, com cerca de 8.700 hectares de vinhedos e uma produção próxima de 100 milhões de garrafas em 2025. É também uma denominação marcada por diversas nuances. Ao lado de sua categoria principal, Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore, há expressões mais exclusivas e raras de Prosecco, como Rive, Cartizze e Sui Lieviti. É justamente essa combinação entre escala, diversidade de terroirs e uma classificação progressivamente mais específica que torna esta denominação de origem tão interessante.
História anterior à DOCG
A ligação entre o vinho e as colinas entre Conegliano e Valdobbiadene remonta a um período muito anterior ao conceito atual de denominações de origem. A região teve papel importante não apenas no cultivo da variedade Glera, mas também no desenvolvimento técnico da viticultura e da produção de espumantes no nordeste da Itália. Um dos marcos foi a criação, em 1876, da Escola de Enologia de Conegliano, a primeira da Itália. O desenvolvimento da segunda fermentação em grandes recipientes pressurizados, posteriormente conhecido como método Martinotti ou Charmat, seria outro elemento decisivo para a construção do estilo de Prosecco que conhecemos hoje.
No que se refere especificamente aos vinhos espumantes, um passo decisivo ocorreu em 1969, com a criação da Prosecco di Conegliano Valdobbiadene DOC. Diferentemente do que aconteceu na região de Asolo, não se tratava de uma denominação ampla na qual Prosecco representava apenas um dos tipos de vinho. Conegliano Valdobbiadene já nasceu especificamente associada ao Prosecco, incluindo também a histórica área de Cartizze.
Porém, o grande marco para o universo do Prosecco ocorreu em 2009. Anteriormente associado à uva, o nome Prosecco passou a ser usado como denominação geográfica, enquanto Glera se tornou o nome oficial da principal variedade. Ao mesmo tempo, houve a criação da extensa Prosecco DOC e a Conegliano Valdobbiadene DOC foi elevada à categoria de DOCG. É a partir desse momento que fica mais clara a estrutura existente hoje: uma grande denominação de origem, responsável pela maior parte da produção, e duas DOCGs associadas a territórios menores e mais específicos.
Localização e terroir
Conegliano Valdobbiadene ocupa uma área de colinas na província de Treviso, no Veneto, distribuída por 15 municípios. A diferença em relação à maior parte da Prosecco DOC é visível na paisagem. Em vez de extensas áreas planas, surgem sucessões de encostas, algumas bastante íngremes, o que gera uma grande diversidade de altitudes e de exposições. Em algumas dessas encostas aparecem os tradicionais ciglioni, terraços que acompanham o relevo e ajudam a controlar a erosão. A mecanização torna-se progressivamente mais complexa à medida que a inclinação aumenta, fazendo com que o custo de cultivo seja naturalmente superior ao das áreas planas.

O clima é temperado e relativamente úmido, com chuvas abundantes durante o ciclo vegetativo. A altitude e as diferenças entre as temperaturas diurnas e noturnas nas colinas favorecem uma maturação mais lenta e ajudam a preservar a acidez e os aromas da Glera. Os solos são bastante variados, incluindo formações de origem marinha, com arenitos e margas, além de depósitos aluviais. Essa combinação de relevo, exposição, drenagem e diversidade geológica é justamente um dos argumentos para a crescente valorização de parcelas e de origens específicas dentro da DOCG.
Viticultura das colinas e a Glera
Ao contrário das áreas mais planas, presentes tanto dentro da própria denominação quanto, principalmente, em grande parte da Prosecco DOC, uma parcela importante dos vinhedos de Conegliano Valdobbiadene ocupa encostas, onde o trabalho manual ganha maior importância. É justamente nessas áreas mais acidentadas que surgem algumas das expressões mais particulares da denominação, com diferenças de altitude, de exposição e de solos ganhando maior relevância. A topografia também condiciona diretamente o trabalho no vinhedo e, nas parcelas destinadas a categorias mais específicas como a Rive, Cartizze e Sui Lieviti, a colheita deve ser obrigatoriamente manual.
A Glera é a protagonista quase absoluta. Vigorosa e naturalmente produtiva, apresenta boa acidez e um perfil semi-aromático, marcado principalmente por notas de frutas brancas, cítricos e flores. A composição dos vinhos baseia-se em Glera e pode incluir até 15% de variedades locais, como Verdiso, Bianchetta Trevigiana, Perera e Glera Lunga. Chardonnay e as diferentes variedades de Pinot também podem participar dos cortes. Mais do que mudar radicalmente o caráter dos vinhos, essas variedades historicamente funcionam como componentes complementares em uma região claramente definida pela Glera.
Diversidade de estilos
Apesar de os espumantes dominarem amplamente a produção, Conegliano Valdobbiadene Spumante Superiore está longe de representar um único estilo de Prosecco. A denominação permite diferentes níveis de efervescência e métodos de elaboração e, ao mesmo tempo, estabelece uma diferenciação crescente conforme a origem das uvas. Ao lado das pequenas produções de vinhos tranquilos e Frizzante, o Spumante Superiore constitui o coração da denominação e serve de base para algumas de suas expressões mais particulares. Entender essa estrutura é fundamental para compreender não apenas as diferenças entre os vinhos, mas também a própria hierarquia de Conegliano Valdobbiadene.
Três categorias principais
A categoria Spumante Superiore é a que melhor define o Conegliano Valdobbiadene, respondendo por mais de 97% do volume. Elaborado predominantemente pelo método Martinotti/Charmat, com segunda fermentação em autoclave, busca preservar os aromas primários da Glera. Com isso, dá origem a vinhos espumantes leves e frescos, marcados por notas de flores, maçã, pera e cítricos. Os níveis de açúcar podem variar de Extra Brut a Demi-Sec, permitindo diferentes interpretações dentro de um estilo que tem como elementos comuns o frescor, a fruta e uma efervescência delicada.
As demais categorias representam uma pequena parcela da produção. O Tranquillo, sem a segunda fermentação responsável pela formação das borbulhas, oferece uma expressão mais direta da Glera. Já o Frizzante ocupa uma posição intermediária, com menor pressão e uma efervescência mais suave do que a do Spumante. Este último pode ser elaborado em autoclave ou passar pela segunda fermentação diretamente na garrafa. Nesse caso, os sedimentos podem permanecer no vinho, trazendo alguma turbidez e notas de pão e de levedura, em uma tradição frequentemente associada à expressão Col Fondo.
Valorizando terroirs e estilos
Mas, mesmo dentro do amplamente dominante Spumante Superiore, há diferenças importantes. A denominação procura valorizar não apenas os diferentes estilos de vinhos, mas também a origem das uvas. É nesse contexto que aparecem as Rive, unidades geográficas dentro de Conegliano Valdobbiadene, a pequena e histórica subzona de Cartizze e o Sui Lieviti, uma interpretação particular do Spumante Superiore com segunda fermentação em garrafa. Essas três expressões seguem regras próprias e ajudam a revelar uma diversidade que vai muito além da imagem mais genérica associada ao Prosecco.
Rive: múltiplas expressões
Se Conegliano Valdobbiadene delimita uma área muito menor do que a do Prosecco DOC, as Rive levam essa ideia de origem um passo adiante. São 43 unidades geográficas que identificam vinhos provenientes de encostas ou de localidades específicas dentro da DOCG. O nome da Rive aparece no rótulo, e o vinho deve ser, necessariamente, um Spumante Superiore de uma única safra. A colheita das uvas deve ser manual e o rendimento máximo cai de 13,5 para 13 toneladas por hectare. Em 2025, as Rive deram origem a cerca de 3,8 milhões de garrafas, o que corresponde a aproximadamente 4% da produção total de Conegliano Valdobbiadene.

Cartizze, pouco mais de 100 hectares
Se a definição de Rive encaixa perfeitamente no conceito de valorização de terroirs específicos, Conegliano Valdobbiadene vai além. No topo da especificidade geográfica aparece Superiore di Cartizze. Não se trata de uma Riva, mas de uma pequena subzona histórica localizada em Valdobbiadene. Seus pouco mais de 105 hectares representam apenas cerca de 1,2% da superfície produtiva da DOCG, e em 2025, deram origem a aproximadamente 1,2 milhão de garrafas, também pouco mais de 1% da produção. O rendimento máximo é ainda menor do que nas Rive, limitado a 12 toneladas por hectare.
Cartizze tem associação tradicional com Proseccos de maior teor de açúcar residual, embora atualmente existam interpretações mais secas. Sua importância, entretanto, reside sobretudo na origem. É uma área delimitada, historicamente reconhecida por sua capacidade de amadurecer a Glera, e o nome Superiore di Cartizze é reservado exclusivamente ao espumante produzido com uvas provenientes dessa pequena zona.
Mudando de estilo
O estilo Sui Lieviti, embora pouco divulgado, recupera a tradição regional de realizar a segunda fermentação na própria garrafa e de manter o vinho em contato com as lias. Existe, porém, uma diferença importante entre a tradição e a classificação atual. Col Fondo continua sendo uma expressão utilizada para esse tipo de vinho histórico, enquanto Sui Lieviti possui regras específicas e pertence oficialmente à categoria Spumante Superiore.
Não há dégorgement: os resíduos da fermentação permanecem na garrafa. O vinho deve vir de uma única safra, passar pelo menos 90 dias entre a fermentação e a permanência com lias e ser obrigatoriamente Brut Nature. O resultado se afasta do perfil mais puramente frutado do Martinotti/Charmat tradicional, podendo apresentar maior textura e aromas de levedura. Trata-se, porém, de uma produção minúscula: em 2025 foram pouco mais de 160 mil garrafas, menos de 0,2% de toda a produção da denominação.
Vinificação
Apesar dessas exceções, a autoclave continua sendo fundamental para a compreensão do Prosecco de Conegliano Valdobbiadene. Na elaboração mais tradicional, procura-se produzir um vinho-base fresco e aromático, evitando, normalmente, a conversão malolática para preservar a acidez e a fruta. A segunda fermentação ocorre então nestes grandes tanques pressurizados, seguida de filtração e engarrafamento sob pressão.
É uma técnica especialmente adequada à Glera. Diferentemente do método tradicional, imortalizado na região de Champagne, no qual longos períodos de contato com as lias transformam profundamente o perfil aromático, o Martinotti/Charmat permite colocar em primeiro plano os aromas primários da variedade. Alguns produtores, porém, prolongam o contato com as lias dentro da própria autoclave, no estilo normalmente chamado de Charmat Lungo. Com mais tempo, podem surgir maior textura e alguns aromas e sabores derivados das leveduras.
Vinhedos e produção
Conegliano Valdobbiadene possui atualmente cerca de 8.700 hectares produtivos. Aproximadamente 8.100 hectares pertencem à área geral da denominação, enquanto cerca de 465 hectares estão registrados como Rive e pouco mais de 105 hectares correspondem a Cartizze. A produção de 2025 ficou em aproximadamente 98 milhões de garrafas. Pouco mais de 97% desse total correspondeu a Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore, enquanto Cartizze respondeu por cerca de 1,2%. Tranquillo e Frizzante, somados, ficaram em aproximadamente 1,4%.

Ligação ao mercado italiano
Apesar da enorme internacionalização do nome Prosecco, Conegliano Valdobbiadene continua muito mais ligada ao mercado doméstico do que a Prosecco DOC. Em 2025, cerca de 56% de sua produção teve a Itália como destino, com 44% exportados. É um contraste significativo com a Prosecco DOC, na qual aproximadamente 80% da produção é destinada a mercados externos.
A estrutura produtiva também permanece bastante fragmentada. Mais de 3.200 viticultores fornecem uvas dentro de uma denominação que reúne pouco mais de 200 produtores de espumantes. Isso cria uma importante separação entre o cultivo, a vinificação e a elaboração do espumante. Ao lado de empresas de maior escala, essa estrutura abre espaço para produtores concentrados em origens mais específicas, incluindo diferentes Rive, Cartizze e estilos menos convencionais, reforçando uma diversidade que contrasta com a imagem mais homogênea normalmente associada ao Prosecco.
Produtores de destaque
Nomes como Adami, Sorelle Bronca, Nino Franco, Ruggeri, Bisol, Bortolomiol e Villa Sandi aparecem com frequência entre as referências de Conegliano Valdobbiadene. Mais interessante do que tratá-los como um grupo homogêneo é observar como eles revelam facetas distintas da denominação. Adami e Sorelle Bronca têm forte ligação com vinhos de origem mais específica e às Rive. Enquanto isso, nomes históricos como Nino Franco e Ruggeri ajudam a demonstrar que Glera e o método Martinotti/Charmat podem produzir vinhos de maior complexidade do que o perfil mais simples normalmente associado ao Prosecco.
Cartizze, Rive, fermentações mais longas em autoclave e a produção minúscula de vinhos refermentados em garrafa mostram uma região em que a discussão começa a se deslocar da simples palavra Prosecco para a valorização da origem. E talvez seja justamente essa a melhor maneira de entender Conegliano Valdobbiadene: dentro de um universo de espumantes que conquistou o mundo principalmente pelo volume, preço e facilidade de consumo, estas colinas tentam mostrar que também há espaço para o terroir e a identidade.
Fontes: Disciplinare di Produzione Conegliano Valdobbiadene Prosecco DOCG; Consorzio di Tutela del Conegliano Valdobbiadene Prosecco DOCG, Andamento della Denominazione 2025, Valoritalia; Consorzio di Tutela del Prosecco DOC; WSET Level 4 Diploma in Wines, Sparkling Wines; Decanter
Imagem: Arcangelo Piai via Consorzio di Tutela del Vino Conegliano Valdobbiadene Prosecco DOCG
Mapa e diagrama: Consorzio di Tutela del Vino Conegliano Valdobbiadene Prosecco DOCG