Douro é sinônimo de vinho tinto encorpado e alcoólico? Se você ainda acredita nisso, precisa conhecer o trabalho de novos produtores que vêm revolucionando o vinho desta região portuguesa. São vinhateiros que exploram maiores altitudes, colheitas mais precoces, orientações menos solares e uma abordagem menos intervencionista na adega para produzir vinhos mais leves e verticais, sem, porém, perder a identidade regional.
No último final de semana, durante o VEJA Comer & Beber Wine Fest, realizado nos dias 22 e 23 de agosto no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, tive a oportunidade de provar cinco exemplos dessa abordagem. O painel reuniu dois vinhos da Quinta do Javali e três da Pormenor, incluindo dois brancos e três tintos, que chegam ao Brasil pela 011 Import. A seguir, minhas impressões.
A de Arinto 2023, Pormenor, 12,5%
Monovarietal de Arinto, proveniente de vinhas velhas com cerca de 40 anos, plantadas a aproximadamente 650 metros acima do nível do mar. Na vinificação, os cachos inteiros passam por maceração curta de 12 horas, seguida de prensagem leve e direta, sem clarificação do mosto. Fermentação natural em barricas usadas de carvalho francês, onde o vinho permanece dez meses com suas lias, sem bâtonnage. Não passou por conversão malolática nem colagem antes do engarrafamento.
Um branco de estilo redutivo e bastante vertical. O nariz mostrou intensidade média-alta, com notas de grapefruit branco, caju e pedra molhada em primeiro plano, acompanhadas de pólvora, camomila, maçã verde e pêssego branco, com leve toque de cedro. No palato, mostrou-se muito seco, com acidez média-alta e corpo médio, destacou-se pela salinidade, frescor e textura austera. Linear e tenso, talvez tenha faltado um pouco de volume no meio da boca para ser um dos principais destaques do painel. R$ 480.
Clos Bonifata 2023, Quinta do Javali, 12,5%
O Clos Bonifata nasce do vinhedo homônimo da Quinta do Javali, em Ervedosa do Douro, a cerca de 600 metros de altitude. O produtor segue princípios biodinâmicos, e a parcela, delimitada por muros de pedra e cercada por vegetação, funciona como um verdadeiro clos. O vinho é um corte de Arinto e Viosinho, com fermentação integral em cimento, onde o vinho faz estágio com as lias.
Um branco jovem, crocante e bastante gastronômico. O nariz, de intensidade média-alta, apresentou aromas de casca de limão, laranja e pêssego amarelo, acompanhados de notas de maresia. No palato, a acidez média-alta conduz a uma estrutura vertical, mas com fruta fresca e textura mais macia do que a do vinho anterior. Fresco, equilibrado e direto, com uma boa combinação de fruta, salinidade e textura. R$ 540.
F de Francesa 2021, Pormenor, 11%
Monovarietal de Touriga Franca, com uvas provenientes de uma parcela situada a cerca de 600 metros de altitude, em Alijó, sobre solos de xisto e granito. A fermentação com cachos inteiros e o vinho permaneceu aproximadamente um ano em grandes recipientes usados de carvalho francês. Com apenas 11% de álcool, segue uma linha bastante distante da imagem mais tradicional dos tintos do Douro.
O nariz apresentou intensidade média-alta, com uma expressão dominada por frutas vermelhas frescas: framboesa, cereja doce e groselha vermelha, acompanhadas por uma nota evidente de menta e ervas verdes. Na boca, muito seco, com corpo médio-baixo e taninos médios e um pouco verdes, mostrou estrutura linear e vertical, além de uma textura relativamente austera. Fresco, leve e muito fácil de beber, com final médio e frutado. Um Touriga Franca simples, porém gastronômico, interessante por mostrar uma face mais “verde” e delicada desta variedade. R$ 380.
Pormenor Tinto 2020, Pormenor, 12,4%
O Pormenor Tinto tem sua elaboração a partir de um field blend de castas tradicionais do Douro, com predominância de Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Amarela e Rufete. As uvas vêm de vinhas velhas de Soutelo do Douro, no Cima Corgo, plantadas acima dos 500 metros de altitude e com exposições leste e norte. Fermentação natural em inox, seguida de maceração prolongada e pouco extrativa. O estágio ocorreu em barricas usadas de carvalho francês.
Aqui o perfil é um pouco mais clássico, embora continue marcado pelo frescor. Nariz limpo e de intensidade média-alta, com rosas frescas, violeta, cereja doce e framboesa, acompanhadas novamente por uma nota de menta. No palato, seco, com acidez média-alta, corpo médio e taninos médios de caráter mais aderente. Elegante e ainda em desenvolvimento, porém sem a mesma precisão dos demais vinhos do painel. R$ 300.
Vinha dos Lobatos 2023, Quinta do Javali, 13,5%
O Vinha dos Lobatos provém de videiras com cerca de 60 anos, situadas a 380 metros de altitude, em Nagoselo do Douro. Plantadas sobre solos de xisto, reúne o tradicional field blend de variedades do Douro. As uvas passam por fermentação natural em cuba de cimento. Depois, o vinho permanece por um ano em barricas usadas de carvalho francês de 500 litros.
Foi o vinho mais completo deste painel. O nariz, intenso e sedutor, apresentou aromas de cereja doce, framboesa e groselha vermelha, acompanhados de notas de violeta e de uma interessante nota de fumaça mineral. A fruta aqui aparece um pouco mais madura, mas sem perda de frescor. Na boca, seco, com acidez média-alta, corpo médio-alto e taninos médios-altos e firmes. Mais profundo, preciso e concentrado do que os demais, ainda elegante. Um belo exemplo de como a concentração de fruta e o frescor não precisam ser conceitos opostos no Douro. R$ 435.