Millerandage: cachos de uvas pouco uniformes e impacto sobre os vinhos

A frase “um grande vinho nasce no vinhedo” faz todo sentido. Afinal de contas, a qualidade das uvas tem importância fundamental nas características dos vinhos. Assim, conhecer de perto o que acontece com as videiras e as uvas pode ajudar a entender melhor o vinho que acaba em nossas taças. Nos últimos anos, um termo francês tem aparecido com mais frequência na descrição das condições de safra e da fisiologia das uvas: millerandage.

Esta condição descreve uma situação que pode ocorrer na viticultura: a presença de bagos muito pequenos, geralmente sem sementes, misturados a bagos normais dentro do mesmo cacho. Conhecido em inglês como shot berries ou hens and chicks, o fenômeno resulta em cachos com grande heterogeneidade, tanto no tamanho quanto no grau de maturação. Embora reduza naturalmente a produção, sua influência na qualidade do vinho depende de diversos fatores, sobretudo do clima após a floração.

Na prática, o millerandage não é uma doença que afeta as videiras, mas sim uma irregularidade fisiológica nos cachos e bagos. Ela pode aparecer de forma mais ou menos intensa conforme a safra, a variedade cultivada e as condições locais. Em situações extremas pode representar um desafio para viticultores e enólogo; porém, em alguns casos, pode até ser positiva, contribuindo para maior concentração dos vinhos.

Causas

A principal causa está ligada às condições meteorológicas durante a floração e o vingamento (período em que ocorre a frutificação, chamado de inglês de fruit set). Este período geralmente ocorre entre final de maio e junho no Hemisfério Norte e entre final de outubro e dezembro no Hemisfério Sul. Temperaturas frias, excesso de chuva ou nebulosidade nestes intervalos podem reduzir a polinização e a fecundação das flores, levando à formação de bagos sem sementes. Além disso, ventos fortes ou instabilidade climática nessa fase fragilizam ainda mais o processo.

Entre as causas estão também fatores nutricionais, sobretudo a deficiência de boro, micronutriente essencial para o crescimento do tubo polínico e, portanto, para a fecundação das videiras. Por ser muito solúvel e móvel, sua concentração tende a cair de forma significativa em climas úmidos e com chuvas intensas, sobretudo quando as videiras estão plantadas em solos arenosos ou calcários. A falta de zinco ou nitrogênio também pode agravar o problema. Do ponto de vista varietal, algumas castas apresentam flores menos férteis e, consequentemente, maior predisposição ao millerandage.

Impacto nas uvas

O efeito imediato é a redução do rendimento e, consequentemente, da produção. Parte dos bagos permanece pequena e pouco desenvolvida, e não têm uso para a elaboração de vinhos, por conta da falta de açúcares e notas herbáceas intensas.  A diferença entre os bagos aparece de forma mais clara durante o verão, pois os bagos normais seguem seu ciclo de maturação, acumulando açúcares e fenóis, enquanto os “bagos-chumbinho” podem ter dois destinos.

Nos casos chamados de millerandage verde, eles permanecem duros, ácidos e herbáceos até a colheita, prejudicando o equilíbrio do mosto se não forem removidos. Já nos casos de millerandage doce, esses bagos conseguem acumular açúcares, podendo até concentrar-se em passas. Nesse caso, que é bem menos comum, pode haver algum tipo de contribuição positiva para os vinhos.

Consequências nos vinhos

O millerandage reduz os rendimentos, mas o impacto sobre os vinhos não é linear. Quando ocorre em anos de verão quente e ensolarado, a limitação natural da produção pode favorecer a concentração. Com menos bagos normais por videira, os recursos da planta são direcionados a menos uvas, resultando em vinhos mais densos, estruturados e, no caso da Pinot Noir, até mais profundos em cor e textura. Muitos produtores consideram esse efeito como uma espécie de “poda natural” feita pela própria videira.

Em contrapartida, quando o verão permanece frio e nublado, mesmo os bagos não afetados podem apresentar dificuldades em acompanhar o ciclo de maturação. Nesse cenário, a presença de bagos verdes e ácidos contribui para a heterogeneidade dos cachos, tornando o trabalho de triagem essencial. Os vinhos dessas safras tendem a ser mais leves, com acidez marcante e, por vezes, notas herbáceas e adstringência, sobretudo se os bagos não forem devidamente separados antes da vinificação.

Assim, o millerandage pode ser tanto um aliado quanto um problema. Em anos favoráveis, pode trazer concentração, complexidade e potencial de guarda; em anos desfavoráveis, traduz-se em vinhos magros e diluídos, que refletem mais a irregularidade da maturação do que a virtude da limitação de rendimento. O fator decisivo é, portanto, o clima após a floração, durante os meses críticos (no caso do Hemisfério Norte) de julho e agosto.

Variedades mais afetadas

Nem todas as variedades apresentam a mesma sensibilidade. Entre as uvas tintas, geralmente as mais suscetíveis, o millerandage é mais comum em cepas como Pinot Noir, Merlot, Malbec, Grenache, Cabernet Franc e Tannat. Entre as brancas, destacam-se Sémillon e Savagnin. Já castas como Cabernet Sauvignon, Syrah, Chardonnay, Tempranillo, Sangiovese e Riesling tendem a sofrer menos, ainda que não totalmente imunes. A genética da flor e a fertilidade varietal parecem explicar essa diferença, tornando algumas uvas mais vulneráveis do que outras em anos de floração difícil.

Regiões de maior incidência

Na França, o fenômeno é particularmente comum na Borgonha, sobretudo nos vinhedos de Pinot Noir da Côte d’Or, onde primaveras frias e chuvosas não são raras. Também é recorrente em Champagne (Pinot Noir e Meunier) e na margem direita de Bordeaux, em regiões dominadas por Merlot, como Saint-Émilion e Pomerol. Casos importantes também se observam no Vale do Loire (vinhedos de Cabernet Franc e Malbec) e no sudoeste francês. Em contrapartida, em regiões mediterrâneas mais quentes e ensolaradas, como o Rhône ou o Languedoc, a ocorrência tende a ser menos severa, embora Grenache e Carignan possam mostrar o problema em anos atípicos.

Em outros países europeus, millerandage ocorre também com certa frequência na Alemanha (Mosel, Rheingau e Pfalz), Áustria, (Burgenland e Styria), Itália (Piemonte, Trentino Alto-Ádige, Friuli e Vêneto) e Espanha (Rioja Alavesa e Ribera del Duero), Já no Novo Mundo, destaque para Estados Unidos (Oregon), Chile (Casablanca e San Antonio) e Nova Zelândia (Martinborough e Central Otago)

Diferença entre millerandage e coulure

Embora muitas vezes mencionados juntos, millerandage e coulure são fenômenos distintos. No millerandage, a flor chega a ser fecundada de forma parcial ou deficiente, dando origem a bagos pequenos, normalmente sem sementes, que permanecem no cacho até a colheita. Já a coulure corresponde à queda das flores ou dos pequenos bagos logo após a floração, antes mesmo de se desenvolverem.

Ou seja, no primeiro caso há bagos de tamanhos desiguais no cacho. No segundo, há simplesmente ausência deles. Ambas as situações reduzem naturalmente os rendimentos, mas a coulure gera perdas mais diretas de quantidade, enquanto o millerandage traz heterogeneidade de maturação com efeitos qualitativos mais complexos.

Fontes: The Science of Grapevines: Anatomy and Physiology, Markus Keller; Wine Science: Principles and Applications, R. S. Jackson; Tratado de Viticultura General, José Hidalgo Togores; Compendium of International Methods of Analysis of Wines and Musts, OIV; Wine Dictionary, Antonio Maçanita; entrevistas com produtores

Imagem: Domaine Roche de Bellene

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