Wairarapa: Pinot Noir e Sauvignon Blanc com foco em qualidade

Para muita gente, pensar em vinhos da Nova Zelândia remete a duas variedades: Sauvignon Blanc e Pinot Noir. A primeira é, de longe, a mais plantada e representa quase 70% de todos os vinhedos do país. Já entre as uvas tintas, a Pinot Noir responde por apenas 12% da área total, mas por impressionantes 75% dos vinhedos dominados pelas tintas. Curiosamente, em apenas uma região neozelandesa, estas duas variedades dominam os vinhedos em quase igualdade: Wairarapa. Em 2026, a primeira respondeu por 44% da área regional e a segunda por 42%.

É também uma região de contrastes. Wairarapa representa apenas 3% dos vinhedos da Nova Zelândia e responde por uma parcela ainda menor da produção nacional. Porém, concentra alguns dos produtores mais respeitados do país. Sua reputação está fortemente associada ao Pinot Noir de Martinborough, embora o território também inclua Gladstone e a área de Masterton, sobretudo Opaki, cada uma com diferenças de clima, relevo e solos. A menor escala das propriedades e a elevada concentração de projetos independentes ajudaram a construir uma identidade mais orientada à qualidade e ao respeito pelo terroir do que a grandes volumes.

A localização de Wairarapa

História ligada à Pinot Noir

A história do vinho em Wairarapa começou muito antes do desenvolvimento moderno de Martinborough. Na década de 1880, Marie Zelie, uma imigrante originária da Borgonha, estabeleceu-se em Masterton e plantou Pinot Noir em Lansdowne. A experiência não deu origem imediata a uma indústria duradoura, mas teria sido o primeiro plantio desta variedade na Nova Zelândia.

O início da fase contemporânea ocorreu no final da década de 1970. Derek Milne identificou semelhanças entre as condições de Martinborough e as de algumas áreas da França. Entre os pontos comuns estavam o clima relativamente seco e os terraços de solos aluviais, com cascalhos e boa drenagem. As conclusões incentivaram um grupo de pioneiros a plantar vinhedos ao redor do vilarejo. Dry River foi fundada por Neil McCallum em 1979. No ano seguinte, Clive Paton iniciou a Ata Rangi, enquanto Martinborough Vineyard e outros projetos começaram praticamente no mesmo período. Os resultados obtidos com o Pinot Noir colocaram Martinborough no mapa internacional e estimularam o plantio de outras variedades.

Uma segunda etapa teve início no final da década de 1990. Começava a expansão em direção a Te Muna Road, a sudeste do vilarejo. Larry McKenna, ligado à fundação da Martinborough Vineyard e, posteriormente, à Escarpment, estabeleceu vinhedos nessa área em 1999. No mesmo ano, a Craggy Range iniciou um projeto de cerca de 100 hectares.

Localização, clima e solos

Wairarapa fica no extremo sul da Ilha Norte, a nordeste de Wellington. A cadeia de Remutaka separa a região da capital e, juntamente com as montanhas Tararua, bloqueia parte da umidade que chega do oceano. O resultado é um ambiente mais seco e ensolarado do que o de Wellington, embora exposto a ventos frios vindos do sul, com significativa variação de temperatura entre o dia e a noite. O clima é relativamente fresco, com poucos dias acima de 30 °C.

O rio Ruamāhanga atravessa Wairarapa de norte a sul, ligando Masterton, Gladstone e Martinborough antes de seguir em direção à Palliser Bay. Ao longo de milhares de anos, o sistema fluvial formou terraços, planícies e depósitos aluviais com diferentes proporções de cascalho, areia, silte e argila. Os solos mais pedregosos oferecem drenagem rápida e menor fertilidade, enquanto áreas com mais argila aumentam a retenção de água e podem contribuir para vinhos de maior volume e textura. Em partes do norte e nas elevações orientais, também se observam solos com maior presença de calcário.

A geografia de Wairarapa

As diferenças de altitude entre as áreas produtoras são modestas. Mas são suficientes para criar variações de temperatura, de exposição ao vento, de ocorrência de geadas e no ritmo de amadurecimento. Por conta disso, embora o nome Martinborough domine a imagem externa da região, Wairarapa não constitui um terroir homogêneo.

Martinborough: o centro histórico

Dentre as três sub-regiões, Martinborough, localizada no setor mais ao sul de Wairarapa, é a mais conhecida. O núcleo histórico dos vinhedos ocupa o Martinborough Terrace, um antigo terraço fluvial elevado, com aproximadamente cinco quilômetros de extensão e um quilômetro de largura. Seus solos combinam cascalhos aluviais, silte e parcelas com maior presença de argila, sobre formações calcárias.

O clima é fresco, seco e ventoso. Os baixos volumes de chuva reduzem a pressão de doenças, mas os ventos frios podem dificultar a evolução das uvas. Os rendimentos frequentemente menores ajudam a explicar a concentração, a estrutura e o caráter salgado e terroso associados a muitos Pinot Noirs locais. Martinborough também produz Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling e Pinot Gris de alto nível.

Ao redor do vilarejo, as propriedades são geralmente pequenas e próximas. Essa configuração limitou o interesse de grandes empresas e favoreceu a formação de uma comunidade de produtores independentes. Te Muna representa uma extensão mais recente. Seus vinhedos ficam a alguns quilômetros a sudeste de Martinborough, o que possibilita projetos de maior porte, como os de Craggy Range e Escarpment.

Gladstone: terraços fluviais e crescimento

Gladstone ocupa a parte central de Wairarapa, entre Martinborough e Masterton. O rio Ruamāhanga atravessa a área e formou terraços e depósitos aluviais propícios à viticultura. Entre suas zonas e localidades aparecem Gladstone, East Taratahi, West Taratahi, Longbush e Clouston. O clima tende a ser um pouco mais quente do que em Martinborough, embora a região possa receber influências instáveis vindas do leste, capazes de retardar a maturação em determinados anos.

A região reúne produtores estabelecidos e novos projetos. Entre os nomes locais estão Gladstone Vineyard, Borthwick, Johner Estate, Urlar, Alexia Wines e Cottier Estate. Schubert Wines, frequentemente associada a Martinborough nas comunicações comerciais, cultiva parte de seus vinhedos na área mais ampla de Gladstone e é um dos exemplos de excelência do norte de Wairarapa.

As sub-regiões de Wairarapa

O norte: Masterton e Opaki

Masterton é a área mais ao norte e a mais extensa geograficamente de Wairarapa. A maior parte da atividade vinícola concentra-se em Opaki, nos arredores setentrionais da cidade, mas também existem pequenos vinhedos em Te Ore Ore, Bideford, Homebush e outras localidades. A proximidade das montanhas Tararua aumenta a incidência de geadas nos meses frios, mas, em contrapartida, Masterton pode registrar as temperaturas mais altas da região no verão.

Os solos variam de cascalhos e antigos leitos fluviais bem drenados a áreas com mais argila e calcário. Os cascalhos tendem a favorecer uma fruta mais aberta e direta. Masterton abriga vinícolas de tamanhos bastante distintos. Matahiwi Estate está entre os maiores produtores de Wairarapa, enquanto Le Grá, Home Fields e outros projetos trabalham em escala menor. A diversidade de solos e de exposições torna complexo definir um único perfil para os vinhos dessa área.

Área plantada e principais variedades

Apesar de sua reputação, Wairarapa é uma região de pequeno porte. Em 2026, eram 1.166 hectares plantados, dos quais 1.142 hectares estavam em produção. Isso corresponde a aproximadamente 3% da área vitícola da Nova Zelândia. Duas uvas respondem por mais de 85% dos vinhedos. A Sauvignon Blanc ocupa 515 hectares, o que corresponde a 44% do total da região. A Pinot Noir vem logo atrás, com 494 hectares e participação de 42%.

A Chardonnay aparece em um distante terceiro lugar, com 65 hectares e 5% da área. Em seguida vêm Pinot Gris, com 45 hectares e 4%, e Riesling, com 16 hectares e pouco mais de 1%. Estas cinco principais variedades representam cerca de 97% dos vinhedos. Existem ainda pequenas áreas de Gewürztraminer, Grüner Veltliner, Chenin Blanc, Albariño, Merlot, Cabernet Franc, Pinot Meunier e Gamay, entre outras.

Produção contida e baixos rendimentos

Na safra de 2025, Wairarapa colheu 7.597 toneladas de uvas, o que equivale a aproximadamente 1,5% da colheita da Nova Zelândia. A produção regional é, portanto, proporcionalmente menor do que sua presença nos vinhedos, que representam 3% da área plantada do país. Entre as regiões vitícolas, Wairarapa ocupou, em 2025, a sétima posição em volume colhido, atrás de Marlborough, Hawke’s Bay, North Canterbury, Gisborne, Nelson e Central Otago.

Sendo a sexta maior região em termos de área de vinhedos, o resultado reflete diversos fatores. São rendimentos médios mais baixos, resultado da maior proporção de uvas tintas em relação à média nacional, do clima fresco, dos ventos durante a floração, do risco de geadas e da forte presença de pequenos produtores voltados a vinhos de maior valor. Em 2025, o rendimento ficou próximo de 6,7 toneladas por hectare, bem abaixo da média nacional de aproximadamente 12,2 t/ha.

Pinot Noir, Sauvignon Blanc e outros estilos

Pinot Noir continua sendo o principal cartão de visitas. Os melhores vinhos trazem aromas e sabores de frutas vermelhas e escuras, especiarias, acidez elevada e um toque terroso, herbal ou salgado. A palavra savoury, sem tradução precisa em português, aparece repetidamente nas descrições dos vinhos da região. Em Martinborough, os vinhos são mais estruturados, mas o estilo mudou nas últimas décadas. Muitos produtores reduziram a extração e o uso de carvalho novo e passaram a colher um pouco mais cedo, buscando vinhos mais leves e verticais.

Os Pinot Noirs de Martinborough Terrace tendem a combinar concentração, tensão e capacidade de envelhecimento. Te Muna pode produzir versões igualmente estruturadas, por vezes com maturação ligeiramente mais tardia. Gladstone e Masterton apresentam maior variação, embora existam exemplos de nível muito alto e nem sempre seja fácil identificar a origem exata apenas pela degustação.

A Sauvignon Blanc mostra outra face da região. São estruturalmente diferentes da maioria dos exemplares de Marlborough, de longe a maior região produtora da Nova Zelândia. Podem apresentar fruta menos exuberante, acidez mais alta e textura mais macia, com notas de ervas e de cítricos. Parte dos produtores utiliza a fermentação em barricas, o contato com as lias e o envelhecimento em carvalho para aumentar a complexidade.

Produtores de referência

Ata Rangi é um dos nomes pioneiros e permanece como uma das principais referências de Pinot Noir neozelandês. Criada por Clive Paton em 1980, a propriedade ajudou a estabelecer a reputação de Martinborough. Dry River é menor e construiu uma imagem de cult producer. Sua produção média é de aproximadamente 17 mil garrafas, com Pinot Noir, Riesling, Gewürztraminer e Pinot Gris. Martinborough Vineyard também integra o grupo de produtores mais antigos, enquanto Te Kairanga, estabelecida em 1984, trabalha em escala maior e produz Pinot Noirs de perfil geralmente mais amplo e maduro.

Craggy Range foi decisiva para a expansão em Te Muna. Seus vinhedos concentram-se em Pinot Noir e Sauvignon Blanc, embora a vinificação ocorra na sede da empresa em Hawke’s Bay. Escarpment, fundada por Larry McKenna, também está fortemente ligada a Te Muna e ganhou reputação por Pinot Noirs estruturados, incluindo cuvées de parcelas específicas. Palliser Estate está entre as maiores propriedades locais, enquanto Schubert Wines alcançou reconhecimento internacional com Pinot Noir proveniente de vinhedos cultivados organicamente no norte da região.

Kusuda, fundada pelo japonês Hiroyuki Kusuda, trabalha em escala muito reduzida e se tornou um dos nomes de maior prestígio, especialmente por seus Pinot Noirs e Rieslings. Entre os projetos mais recentes, Oraterra reúne a antiga equipe de Dry River e trabalha com vinhedos biodinâmicos. Nga Waka, Grava, Cambridge Road, Big Sky, Huntress, Luna Estate e Margrain ampliam a diversidade de Martinborough. No norte, Urlar, Johner, Borthwick, Alexia, Matahiwi e Le Grá ajudam a mostrar que Wairarapa vai muito além de sua sub-região mais famosa.

Fontes: NZ Wines; NZ Wine Directory; Wairarapa Wine Region; Vineyard Report 2026, New Zealand Winegrowers; Small but mighty: Why Pinot Noir thrives in Martinborough, Decanter; Regional profile: Wairarapa, Decanter; Martinborough: In Focus, Decanter

Mapas: New Zealand Wine

Imagens: NZW.Inc.Craggy.Range

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