Quando pensamos em apreciar uma boa taça de espumante, geralmente é a França, mais especificamente a região de Champagne, que nos vem à mente. Afinal de contas, é a partir desta região francesa que esta bebida se espalhou pelo mundo. Aliás, o uso do termo Champagne para espumantes tem uma regulamentação bastante estrita, pois somente espumantes elaborados nesta parte da França podem receber este nome.
E existe regulamentação também quanto ao uso do próprio nome do método de elaboração. Caso a elaboração do espumante ocorra em outra região que não a Champagne, a menção deve ser para “método tradicional”, não método Champenoise. Nada mais justo, afinal, para região que criou e desenvolveu esta bebida que fascina tanta gente. Mas será que isso é verdade?
Método anterior a Dom Pérignon
Por muito tempo, as referências históricas colocaram Dom Pérignon como o inventor do método Champenoise. Mas evidências mais recentes mostram que isso não é verdade. Embora este monge beneditino tenha contribuído com importantes avanços, o primeiro documento descrevendo esta forma de elaborar espumantes data de 1662, seis anos antes do francês assumir a posição como mestre de adega da Abadia de Hautvillers.
E o autor do documento, hoje reconhecido como evidência inequívoca da primeira descrição do método Champenoise, foi um inglês. Christopher Merrett, nascido em 1614 e falecido em 1695, foi o primeiro bibliotecário do Royal College of Physicians (RCP) e um membro fundador da Royal Society, um dos primeiros grupos organizados de cientistas no mundo.
Detalhando como elaborar um espumante
Em 17 de dezembro de 1662 Merrett apresentou um artigo sobre vinificação perante a recém-formada Royal Society. No documento, Merrett descreve de forma objetiva o processo de segunda fermentação. Nele, após uma fermentação inicial, há adição de açúcar ao vinho engarrafado, dando condições para a criação natural de borbulhas. Ele se baseou em observações do que acontecia nas adegas da época, tanto de forma acidental, como, mais importante, de maneira consciente.
Muitas vezes, esta segunda fermentação ocorria acidentalmente em regiões produtores, inclusive a Champagne. Por conta do tempo frio, a fermentação parava naturalmente e recomeçava novamente na primavera, à medida que a temperatura subia. Se isso acontecesse, as garrafas de vinho muitas vezes explodiam sob a pressão, causando estragos nas adegas.
A partir desta observação, Merrett descreve que viticultores e importadores ingleses estavam, pela primeira vez, intencionalmente adicionando açúcares. Para tal, contavam com desenvolvimento de garrafas mais grossas e duráveis, capazes de suportar a efervescência.
Estudioso em várias áreas
Merrett, porém, não era um especialista em vinhos. Ele estudou medicina em Oxford, obtendo seu bacharelado em junho de 1636. Ele se estabeleceu em Londres por volta de 1640 e começou a trabalhar como médico. Em 1651, tornou-se membro da RCP. No mesmo ano, ele foi nomeado como o primeiro guardião da biblioteca e museu. Merrett também foi membro do “Colégio Invisível”, um precursor da Royal Society, criada por volta de 1645.
Merrett rapidamente se tornou um membro ativo da nova sociedade. Os trabalhos que escreveu – incluindo temas tão diversos quanto a região de Lincolnshire, mineração de estanho na Cornualha e a arte do refino – refletem o extenso mandato da Royal Society. E isso incluia coletar informações sobre todo o conhecimento, não apenas o que chamamos hoje de ciência.
E os mercadores tinham um importante papel neste processo: funcionavam como fontes de dados. Um dos primeiros meios de coleta de informações da Royal Society era através do envio de questionários para contatos, geralmente comerciantes e seus agentes, no Reino Unido e no exterior.
Cronista de um método já existente
Merrett foi um dos vários envolvidos nesta coleta de “conhecimento” documentando histórias e processos, tanto do comércio como da indústria. E ele teve um papel importante, já que, em junho de 1664, foi nomeado presidente do novo comitê oficial da Royal Society para a história dos negócios.
Portanto, Merrett não inventou o método Champenoise, mas foi o primeiro a descrevê-lo de forma detalhada, provando que já era utilizado em 1662. Uma importante contribuição para entender melhor a evolução dos processos de elaboração de vinhos, servindo também para desmascarar versões “mais românticas” sobre a criação do Champagne.
Fontes: Christopher Merrett and the beginnings of Champagne, Royal College of Physicians; The Bubbly Professor
Imagem: British Library via Unsplash