Os incêndios voltaram a ocupar um lugar central no verão europeu de 2026, trazendo impactos, inclusive, para a viticultura. Até 22 de julho, o European Forest Fire Information System (EFFIS) havia mapeado pouco mais de 254 mil hectares queimados na União Europeia desde o início do ano. O volume estava um pouco abaixo dos 270,5 mil hectares registrados no mesmo período de 2025, mas permanecia muito acima da média dos 20 anos anteriores. O número de ocorrências também chamava a atenção: 1.254 incêndios, mais do que o dobro da média histórica de 569 para esse período.
Esses dados, porém, ainda não incorporavam integralmente os grandes incêndios que avançaram no final de julho sobre a Espanha e o sudoeste da França. Entre eles estavam os focos que atingiram a província de Ávila, nos arredores da Sierra de Gredos, e os incêndios da Gironde e de outras áreas da Nova Aquitânia. Levantamentos posteriores, com base nos dados do EFFIS, indicavam que a superfície queimada já se aproximava de 345 mil hectares em 26 de julho. Estes dados aumentam a probabilidade de que 2026 supere o recorde de 2025, quando 1,08 milhão de hectares queimaram na União Europeia.
Impacto sobre a viticultura
Nessas regiões, os incêndios podem afetar significativamente a viticultura. Um incêndio de dezenas de milhares de hectares pode avançar sobretudo sobre áreas florestais e pastagens, atingindo uma área relativamente pequena de vinhedos. Porém, a perda de poucos hectares pode ser econômica e culturalmente relevante quando envolve parcelas centenárias, variedades raras ou vinhos de produção limitada. É exatamente o que começa a aparecer na Sierra de Gredos, onde o incêndio alcançou vinhas velhas.
O efeito sobre a produção de vinho ocorre basicamente de duas maneiras. A primeira é a ação direta, que pode destruir a colheita, matar videiras, danificar troncos e raízes e comprometer a estrutura das vinícolas. Mesmo quando as plantas sobrevivem, o calor pode afetar o sistema vascular e reduzir a produção nas safras seguintes. Quando é necessário o replantio de uma vinha velha, a perda não se limita ao valor das uvas: há a perda de décadas de adaptação ao solo, de material vegetal antigo e de uma identidade comercial que não pode ser reconstruída imediatamente.
A segunda forma de impacto ocorre pela exposição das uvas à fumaça. Nesse caso, o território potencialmente atingido é muito maior do que a superfície queimada, pois a fumaça e as cinzas podem percorrer longas distâncias. Isso não significa, porém, que toda vinha coberta por fumaça produzirá vinhos contaminados. A presença de cinzas sobre as folhas, a redução da qualidade do ar ou mesmo a proximidade do fogo não comprovam, isoladamente, a ocorrência de smoke taint. O risco depende da composição da vegetação queimada, da concentração e da duração da exposição, da direção dos ventos e, sobretudo, do estágio de desenvolvimento das uvas.
Espanha: o fogo alcança as vinhas velhas de Gredos
A Espanha concentra, até o momento, o caso mais dramático de impacto direto dos incêndios de 2026 na viticultura. Antes mesmo da semana mais crítica de julho, o país já havia ultrapassado 100 mil hectares queimados, um valor próximo da média anual da última década, apesar de a fase normalmente mais perigosa da temporada ainda estar começando. Depois vieram os grandes incêndios de Guadalajara, Ávila e da Sierra Oeste de Madri, ampliando rapidamente esse balanço.
Entre esses incêndios, nenhum apresenta, até agora, uma ligação tão direta com vinhedos de reconhecido valor histórico quanto o iniciado em 22 de julho nas proximidades de Burgohondo, na província de Ávila. Até 27 de julho, o fogo já havia ultrapassado 50 mil hectares e, segundo o governo espanhol, era o maior incêndio da história recente do país. O perímetro avançou por uma paisagem composta por florestas, bosques, pastagens, pequenas propriedades agrícolas e vinhedos dispersos nas encostas da Sierra de Gredos.
A relevância vitivinícola da área está associada sobretudo à DOP Cebreros. A denominação de origem abrange 35 municípios da província de Ávila e reúne algumas das maiores concentrações de vinhas velhas de Garnacha e de Albillo Real da Espanha. Em 2024, havia aproximadamente 501 hectares inscritos, distribuídos em 1.143 parcelas e cultivados por 341 viticultores. A distribuição dos vinhedos ajuda a entender a exposição. O município de Cebreros concentrava 318 hectares, o que equivale a 62% do total. El Barraco aparecia com 60 hectares, ou 12%, e Burgohondo, onde o incêndio começou, com 28 hectares, aproximadamente 6%.
Perdas confirmadas, dimensão ainda desconhecida
Os primeiros relatos mostram que não se trata apenas de uma ameaça. Vinhedos foram tomados pelas chamas. Entre as perdas mais importantes divulgadas até 27 de julho estava a parcela San Gregorio, da Bodega El Reventón. Segundo os responsáveis pelo projeto, o fogo provocou danos extensos em um vinhedo que inclui cepas plantadas na década de 1920 e que dá origem a um dos vinhos de parcela da propriedade.
Chuchi Soto, fundador da Soto Manrique e responsável pela cooperativa de Cebreros, também confirmou a perda de uma vinha, enquanto aguardava acesso às demais parcelas. A Indiano Wines relatou a perda de várias videiras velhas após as chamas cercarem um de seus vinhedos. Nesse caso, os responsáveis afirmaram que a limpeza prévia do solo e da vegetação sob as plantas impediu a propagação mais ampla do fogo pelo interior da parcela.
Em 28 de julho, as restrições de acesso ainda impediam a inspeção de várias propriedades. As perdas comunicadas por El Reventón, Soto Manrique e Indiano Wines representam, infelizmente, apenas um ponto de partida. O cálculo da superfície vitícola efetivamente atingida somente ocorrerá após a reabertura dos acessos e a inspeção das parcelas.
Em Gredos, o valor do dano não se limita às uvas que não serão colhidas neste ano. Muitas das parcelas são formadas por videiras muito antigas, cultivadas em vaso, em terrenos graníticos ou de ardósia, frequentemente a altitudes elevadas e com rendimentos naturalmente baixos. Algumas dão origem a Vinos de Parcela de pequena produção.
Outros incêndios na Espanha
Gredos não foi um episódio isolado. Na Sierra Oeste de Madri, três incêndios iniciados em Villa del Prado, San Martín de Valdeiglesias e Almorox se uniram em 24 de julho. Em 26 de julho, o complexo permanecia fora de controle e já havia queimado aproximadamente 22 mil hectares, tornando-se o pior incêndio registrado na história da Comunidade de Madri.
Até 28 de julho, os incêndios de Ávila, da Sierra Oeste de Madri e de áreas de Toledo haviam queimado, em conjunto, aproximadamente 77 mil hectares. Esse número representa a soma das principais frentes da região, sem que esteja comprovado que toda a superfície forme um único perímetro contínuo. A ligação à viticultura é relevante porque San Martín de Valdeiglesias é uma das subzonas da DOP Vinos de Madrid e é conhecida sobretudo pelas suas vinhas de Garnacha. A Comunidade de Madri possui cerca de 8 mil hectares de vinhedos, dos quais mais da metade está inscrita na denominação. Não havia uma estimativa consolidada de vinhedos queimados no complexo da Sierra Oeste.
Em Guadalajara, o incêndio de La Mierla atingiu aproximadamente 32 mil hectares. O governo de Castilla-La Mancha descreveu a maior parte da superfície afetada como florestal, e ainda não surgiram indicações de perdas relevantes em denominações vitivinícolas comparáveis às observadas em Cebreros. Outras frentes atingiram Castellón, Toledo e diversos pontos de Castilla y León.
França: grandes incêndios, mas impactos distintos
A França apresenta dois cenários bastante distintos em 2026. No Sudoeste, um gigantesco incêndio na Gironde avançou em direção à região metropolitana de Bordeaux, provocando evacuações em massa e cobrindo uma extensa área com fumaça, mas, até 27 de julho, sem atingir diretamente os principais vinhedos bordaleses. Mais ao sul, sobretudo nos Pyrénées-Orientales, o fogo entrou efetivamente em áreas cultivadas e queimou parcelas de vinhedos. A diferença é fundamental: Bordeaux representa principalmente um caso de exposição potencial à fumaça, enquanto o sul mediterrâneo já registra danos físicos às videiras.
Bordeaux no centro de uma crise regional
O incêndio que começou em 22 de julho nas proximidades de Saumos, a oeste de Bordeaux, propagou-se rapidamente pelas florestas de pinheiros na costa da Gironde. Em poucos dias, a superfície queimada alcançou aproximadamente 42 mil hectares, a maior parte composta por florestas e áreas de vegetação espontânea. No conjunto da França, cerca de 220 mil moradores e turistas foram retirados de casas, hotéis, acampamentos e de localidades ameaçadas. O fogo chegou a aproximadamente 15 quilômetros dos acessos à área metropolitana de Bordeaux.
Isso não significa, porém, que haja impacto direto nos vinhedos de Bordeaux. Em 27 de julho, Christophe Château, diretor de comunicação do Conseil Interprofessionnel du Vin de Bordeaux, afirmou que as principais áreas vitícolas da região não haviam sido atingidas pelo fogo. Segundo ele, a seca continuava sendo uma preocupação mais imediata para os produtores do que o incêndio propriamente dito.
Se as chamas não atingiram diretamente as principais vinhas de Bordeaux, a fumaça permanece como a questão vitivinícola mais relevante. A intensidade do fogo foi suficiente para produzir um pyrocumulonimbus, uma nuvem formada quando o calor extremo impulsiona fumaça, cinzas e vapor de água para as camadas superiores da atmosfera. Foi o primeiro fenômeno desse tipo a ser oficialmente registrado na França. Ainda não há, porém, estudos que permitam estimar o impacto da exposição sobre os vinhedos ou confirmar a contaminação das uvas.
Pyrénées-Orientales: chamas nos vinhedos
A situação foi diferente nos Pyrénées-Orientales, no extremo sul da França. No início de julho, um grande incêndio atingiu a área de Trévillach e municípios vizinhos, queimando aproximadamente 4.600 hectares de vegetação e provocando a retirada de cerca de 10 mil pessoas. Ao contrário do ocorrido em Bordeaux, as chamas atravessaram um território diretamente ocupado por vinhedos.
Os primeiros levantamentos confirmaram parcelas de vinhas atingidas, embora ainda não haja um total final consolidado da superfície vitícola queimada. Algumas tiveram apenas folhas e cachos queimados nas bordas, enquanto outras foram atravessadas pelo fogo. O grau de sobrevivência das videiras dependerá da intensidade e da duração do calor sobre os troncos.
Aude, Hérault e Minervois
Outros focos ocorreram entre Aude e Hérault, atravessando um dos territórios de maior densidade vitícola da França. Há relatos de vinhedos atingidos e de danos em bordas de parcelas, instalações agrícolas, sistemas de irrigação, postes e cercas. Ainda não existe uma estimativa oficial consolidada que permita somar esses danos aos registrados nos Pyrénées-Orientales. A prudência é especialmente importante porque a região sofreu um incêndio devastador em agosto de 2025, no maciço das Corbières. Naquele episódio, houve a destruição de centenas de hectares de vinhas produtivas, enquanto outras parcelas foram afetadas pela fumaça ou por produtos retardantes de incêndio utilizados no combate ao fogo.
Incêndios também atingiram o departamento do Var e outras áreas mediterrâneas. A Provença apresenta uma combinação semelhante de pinhais, matos, oliveiras e vinhedos, frequentemente muito próximos de áreas residenciais e turísticas. Há relatos de propriedades agrícolas ameaçadas e de parcelas atingidas nas bordas, mas os dados vitícolas ainda não permitem uma estimativa regional.
Itália: incêndios e uma vindima antecipada na Sicília
Na Itália, os incêndios de julho atingiram principalmente a Sicília, além de áreas da Calábria, Sardenha, Abruzzo e outras regiões do sul. Na maior ilha italiana, dezenas de focos avançaram simultaneamente durante a onda de calor, provocando evacuações e atingindo áreas agrícolas nos arredores de Bivona, Castronovo di Sicilia, Santo Stefano Quisquina e outras localidades do interior. Um bombeiro morreu durante as operações de combate.
A crise coincidiu com o início da safra italiana. A colheita começou na Sicília na segunda quinzena de julho, inicialmente com variedades precoces, destinadas sobretudo à produção de espumantes e vinhos brancos. O calor acelerou o ciclo vegetativo das videiras, fazendo de 2026 uma das vindimas mais prematuras já registradas em algumas áreas do país. Ainda é cedo, porém, para calcular a produção nacional ou relacionar diretamente toda essa antecipação aos incêndios.
Apesar da gravidade dos incêndios sicilianos, ainda não há uma estimativa consolidada da área de vinhedos queimada. Para a viticultura, os principais riscos são a entrada direta de chamas nas propriedades, a interrupção dos trabalhos de colheita e a exposição das uvas à fumaça. Como na Espanha e na França, a presença de fumaça não comprova, por si só, a ocorrência de smoke taint. Até o momento, não foram divulgados resultados laboratoriais que indiquem contaminação generalizada da safra siciliana.
Incêndios em outras regiões italianas
Além da Sicília, incêndios ocorreram na Calábria, na Sardenha e no Abruzzo. Na Calábria, alguns focos foram associados pelas autoridades a possíveis ações criminosas, enquanto a Sardenha manteve operações diárias de combate em diferentes pontos da ilha. Essas regiões possuem extensas áreas vitivinícolas, mas ainda não há levantamentos que indiquem perdas relevantes de vinhedos decorrentes dos incêndios de julho.
A Puglia também enfrentou focos próximos à costa e à península do Gargano. Embora seja uma das principais regiões produtoras de vinho da Itália, a maior parte dos incêndios noticiados ocorreu em áreas florestais, turísticas ou de vegetação espontânea. Até agora, não há uma estimativa confiável de vinhedos de Primitivo, Negroamaro ou outras variedades diretamente queimados.
O panorama italiano permanece, portanto, diferente do observado em Gredos. Na Sicília, os incêndios são numerosos e os danos agrícolas são evidentes, mas a extensão das perdas vitícolas ainda é desconhecida. O impacto mais bem documentado sobre o vinho é a coincidência entre o fogo, o calor extremo e uma safra excepcionalmente prematura, enquanto eventuais danos diretos e contaminações por fumaça ainda precisam ser confirmados.
Fontes: Current wildfire situation in Europe, Joint Research Centre; 2025 was EU’s most destructive wildfire season on record, Joint Research Centre; El fuego amenaza el viñedo histórico de Gredos tras arrasar más de 50.000 hectáreas, Vinetur; La D.O.P. Cebreros pone punto final a la añada más corta de su historia, DOP Cebreros; La D.O.P. Cebreros supera la mágica cifra de las 500 hectáreas de viñedo inscritas, DOP Cebreros; Incendio forestal Sierra Oeste (#IFSierraOeste) julio 2026, Comunidad de Madrid; France and Spain race to curb wildfires before new heatwave arrives, Reuters; Mapping the wildfires outside Bordeaux and Madrid, Reuters; France has seen its first “fire-cloud”. What is it?, Reuters; Désolation dans les vignes avec l’incendie le plus violent du 21ème siècle, “le pire est à venir”, Vitisphere; “J’ai des vignes meurtries, j’ai perdu un bois… et des voisins me demandent de finir le travail des flammes”, les vignerons encore sous le choc après les incendies, Vitisphere; Sicilia abre la vendimia italiana bajo la amenaza de incendios y excedentes, Vinetur; Vendemmia avviata in Sicilia e anticipata ovunque, da Nord a Sud annata di qualità, ANSA; Legambiente, in Sicilia 24.451 ettari in fumo, pari a 4.930 campi da calcio, ANSA
Imagem: gerada por IA com ChatGPT