As ilhas atlânticas ganham, a cada dia, mais destaque também por seus vinhos. Para quem está acostumado às características tradicionais de muitos tintos portugueses e espanhóis, geralmente mais encorpados e frutados, eles certamente parecem surpreendentes. São vinhos mais frescos, verticais e elegantes, muitos deles elaborados com uma proporção de cachos inteiros e que refletem um terroir marítimo e marcado por solos vulcânicos.
Proibida 2017, Azores Wine Company (António Maçanita), 12%
O nome refere-se ao uso de uma variedade não vinífera, proibida pela legislação europeia. Elaborado a partir de um field blend de vinhas velhas, com alta proporção da variedade Isabella (uma híbrida de Vitis labrusca e Vitis vinifera) plantada na Ilha do Pico, nos Açores, em solos de lava basáltica. Vinificação em cubas, sem passagem por madeira. Produção de 12.104 garrafas; chega ao Brasil pela Worldwine.
Um vinho provocador, mas que não se destacou no painel. Coloração rubi de baixa concentração, com olfativo primário e intenso. Destaque para aromas de frutas vermelhas (cranberry, groselha vermelha e morango maduro), com notas de borracha, suor (algo foxy) e rosas selvagens. Palato seco com acidez média-mais, corpo médio e taninos arenosos. Linear em estrutura, com fruta madura bem presente, boa tensão e verticalidade. Final médio com discreto toque salino.
Migan 202, Envínate 12%
Este vinho abriu uma sequência de quatro exemplares das Ilhas Canárias, neste caso específico de La Perdoma, no Valle de La Orotava, na ilha de Tenerife. Monovarietal de Listán Negro, com uvas provenientes de quatro parcelas (Montijo, Tío Luis, La Habanera e Las Suertes) com alta proporção de vinhas centenárias plantadas entre 350 e 600 metros de altitude. Ao contrário de vários vinhedos locais, Migan nasce em um vale relativamente mais amplo, onde a altitude torna-se o principal fator diferenciador do terroir. Após a colheita manual, vinificação individual de cada parcela, fermentação natural e estágio de 70% do vinho em tonéis neutros de 500 e 600 litros (as uvas da parcela Tío Luis permanecem em concreto). Assemblage apenas antes do engarrafamento. Assim como os demais vinhos da Envínate, a Oinos é a importadora no Brasil.
Possivelmente o vinho de maior corpo entre os exemplares das Canárias, com acidez média-alta e taninos mais firmes. Trouxe alguma redução e um toque mais funky no olfativo, mascarando um pouco os aromas de cranberry, romã, grapefruit rosa, framboesa e cerejas selvagens. Um patamar acima do Táganan, com frescor e tensão, porém sem a elegância e finesse de La Santa Úrsula e Táganan Margalarga.
La Santa de Úrsula 2021, Envínate 12%
Uvas provenientes de três parcelas de vinhas centenárias, plantadas de forma orgânica em Santa Úrsula, no norte de Tenerife. É um corte de 50% Listán Negro, 48% Negramoll e 2% Listán Blanco, com sua primeira safra em 2020. Na vinificação, cada parcela é elaborada separadamente, com fermentação em tanques de concreto. Nas parcelas mais baixas, 50% de cachos inteiros e maceração semicarbônica, enquanto nas mais altas, 75% de cachos inteiros. Fermentação em concreto, com estágio de oito meses em barricas francesas usadas de 228 L.
Um vinho fresco, leve e vertical, com grande equilíbrio e pureza, com produção de apenas 9.700 garrafas. Visual rubi de baixa concentração, com olfativo delicado e complexo, trazendo aromas de frutas vermelhas frescas (framboesa, morango, cereja vermelha e pitanga), com notas florais (rosas) e de pimenta-branca. Com textura austera e alta acidez, apresentou corpo médio e taninos finos, em integração, repetindo as notas do nariz também no palato. Delicioso e com potencial de guarda, um dos destaques do painel.
Táganan Tinto 2021, Envínate 12%
Este é um assemblage de cerca de 20 parcelas na região do Maciço de Anaga, nordeste de Tenerife, Ilhas Canárias. É um field blend tradicional, composto principalmente por Listán Negro e Negramoll, com proporções menores de Listán Gaucho, Baboso Negro, Malvasía Negra, Vijariego Negro, Castellana Negra, Moscatel Negra e outras variedades tradicionais. Grande parte das videiras possui de 80 a mais de 150 anos, com plantio em pé-franco em solos de origem basáltica. Na vinificação, cada parcela tem fermentação natural separada em cubas abertas, com cerca de 30–50% de cachos inteiros, variando conforme a parcela e a safra. Estágio de aproximadamente oito meses em barricas francesas usadas de 228 e 500 litros.
De todos os exemplares do painel, foi o mais “selvagem” e salino. Apresentou redução que não cedeu, mesmo com o vinho ficando por algum tempo na taça. Olfativo com frutas vermelhas (cereja vermelha, groselha, morango), romã, ervas verdes lembrando engaço e especiarias doces. No palato, mostrou acidez média-alta, corpo médio e taninos arenosos de intensidade média. Vertical e fresco, um dos mais salinos do painel, sobretudo no retrogosto.
Táganan Parcela Margalagua 2023, Envínate 12%
Margalagua é um vinhedo único, considerado um dos grandes crus da Envínate em Tenerife. O nome significa algo como “jardim da água”, refletindo a maior disponibilidade hídrica da parcela em comparação com outras áreas de Táganan. É um field blend, com alta proporção de Listán Negro e Negramoll, e pequenas proporções de Baboso Negro, Malvasía Negra e Vijariego Negro. São vinhas pré-filoxéricas, em pé-franco, plantadas em solos de basalto vermelho e de areia vulcânica. Na vinificação, fermentação natural com 100% de cachos inteiros em tonneau de 500 litros, com maceração de 25–28 dias, seguida de estágio de 11 meses em barricas neutras de 228 litros. Nesta safra, foram apenas 2.300 garrafas, engarrafadas em julho de 2024.
O grande destaque do painel. Um vinho preciso, fresco e vertical, porém com um palato marcado pela concentração de frutas, salinidade e notas minerais típicas de solos vulcânicos, lembrando, em muitos aspectos, um Etna de alta gama. Nariz marcado por aromas de rosas secas, terra queimada, fruta vermelha fresca (framboesa, groselha, morango), com notas de ervas verdes, pedra molhada e pimenta-branca. O gustativo foi o ponto alto. Alta acidez, taninos finos e já surpreendentemente integrados, com corpo médio marcado por um core de fruta pura de excelente concentração, com final de boca longo e elegante, marcado tanto pelas frutas vermelhas como pela mineralidade salina.
Tinta Negra Tonel 364 2023, Vinhos Barbeito 11%
O Tonel 364 faz parte de um projeto recente da Barbeito para demonstrar o potencial da Tinta Negra na elaboração de vinhos tranquilos. Historicamente, quase toda a produção da casta era destinada aos vinhos fortificados da Madeira. Monovarietal de Tinta Negra, proveniente de pequenas parcelas plantadas em solos basálticos vulcânicos. Fermentação com 30% de cachos inteiros começa em lagares de inox, com extração suave, e termina em um antigo tonel italiano, identificado como nº 364, de onde provém o nome do vinho, com estágio de 10 a 12 meses no mesmo recipiente. Produção de apenas 925 garrafas, importado ao Brasil pela Grapy.
O primeiro dos vinhos da Madeira neste painel evidencia um padrão de maturação da fruta bastante distinto do das Canárias. Mesmo sendo um vinho delicado, de acidez elevada e mineralidade evidente, mostrou fruta muito mais madura (morango, cereja) e toques mais intensos de especiarias doces, como canela e cravo. Alta acidez e corpo médio, sem tanta concentração ou profundidade quanto a anterior.
Tinta Negra dos Villões 2023, Cia de Vinhos dos Profetas e dos Villões (António Maçanita e Nuno Faria) 12%
O nome “Villões” é a palavra utilizada pelos habitantes de Porto Santo para designar os madeirenses (“os habitantes da vila”). O projeto procura valorizar a Tinta Negra (este também é um vinho monovarietal) muito além do seu uso tradicional nos fortificados. As uvas têm origem em três parcelas localizadas no Estreito de Câmara de Lobos e em São Vicente, com idade média de cerca de 40 anos, plantadas em solos vulcânicos. Vinificação com 70% de cachos inteiros, fermentação natural, 40 dias de maceração e estágio de oito meses (70% em barricas francesas usadas e 30% em cubas de inox). Produção de 3.766 garrafas, com engarrafamento em agosto de 2024 e chega ao Brasil pela Emi Wines.
Este foi outro dos destaques do painel, evidenciando também um perfil de fruta mais intenso do que o dos vinhos das Canárias, porém, aqui, com muita elegância e precisão. O olfato se mostrou delicado, com aromas intensos de frutas vermelhas maduras (morango, framboesa, groselha) e de rosas, acompanhados por notas de folha de tomate, pimenta branca, ervas secas e um toque de terra queimada. No palato, mostrou-se preciso e linear, com alta acidez (pH de 3,17!), corpo médio, taninos finos e de intensidade média, boa concentração e final longo e equilibrado.