Szepsy é uma das vinícolas que mais contribuíram para a transformação de Tokaj nas últimas décadas. Com longa tradição e prestígio por seus vinhos doces botritizados, a região húngara passou a conquistar espaço também com vinhos brancos secos, sobretudo elaborados com a variedade Furmint. István Szepsy e seu filho do mesmo nome figuram entre os protagonistas dessa mudança, demonstrando que Tokaj também pode produzir brancos secos de alta gama. Seus vinhos seguem uma abordagem tradicional, baseada em fruta de alta qualidade proveniente de vinhas velhas situadas em vinhedos diferenciados, com baixos rendimentos e fermentação em carvalho. O resultado? Níveis de qualidade normalmente associados a alguns dos vinhos brancos mais prestigiados do mundo.
Apesar de diversos sobressaltos, a história da família Szepsy na viticultura de Tokaj é longa, com os primeiros registros datados de 1632. Após o período socialista, a família reconstruiu sua propriedade, concentrando-se progressivamente nos vinhedos históricos de melhor qualidade, especialmente ao redor do vilarejo de Mád. Atualmente cultiva aproximadamente 37 hectares, dos quais 83% estão localizados em vinhedos historicamente classificados como de primeira classe. Na visita à vinícola, tive o prazer de ter uma longa conversa com István Szepsy Jr. sobre a história de Tokaj, seus solos, viticultura e métodos de produção, seguida de uma degustação de oito vinhos. A seguir, minhas impressões sobre os cinco Furmint secos degustados.
Vinificação
Os cinco vinhos secos compartilham técnicas de elaboração. As uvas são desengaçadas e prensadas sem maceração prolongada, para evitar a extração excessiva. A fermentação ocorre em barricas de carvalho húngaro, predominantemente Quercus petraea, com leveduras provenientes de um pied de cuve preparado antes da safra, sem controle ativo de temperatura. Todos passam por conversão malolática completa. O estágio em madeira dura aproximadamente nove meses, sempre em contato com suas lias finas.
A principal diferença está no uso das barricas. Seu Furmint de entrada utiliza predominantemente madeira de segundo, terceiro e quarto usos, com pequena proporção de carvalho novo. Já os vinhos de parcela única fermentam em barricas novas, geralmente de 300 litros. Apesar disso, a influência aromática da madeira é relativamente discreta, resultado que Szepsy atribui à seleção do carvalho, à secagem prolongada das aduelas, ao nível de tostagem e à própria fermentação.
Furmint 2023, 13%
Monovarietal de Furmint, conta com uvas de sete vinhedos localizados em Mád, incluindo parcelas com vinhas de cerca de 50 anos. Representa cerca de um terço da produção da vinícola, com a proposta de apresentar um perfil reconhecível de Furmint, com concentração e estrutura. O resultado é um vinho de altíssima gama, para uma cuvée de entrada. Com notas cítricas, de frutas brancas e de brioche, apresentou textura fina, corpo médio e acidez menos incisiva do que a de muitos outros Furmints secos da região. A malolática completa contribuiu para a textura e para o meio de boca profundo, resultando em um vinho estruturado, mas com frescor e final longo.
Nyúlászó 2022, 13,5%
Proveniente do vinhedo Nyúlászó (uma das parcelas historicamente reconhecidas da região de Mád) é um 100% Furmint com fermentação e estágio em barricas novas de carvalho, procedimento utilizado nos demais rótulos de parcela única. Em comparação com o Furmint 2023, apresentou maior acidez e uma influência do carvalho um pouco mais perceptível, acompanhadas de mais corpo, profundidade e estrutura. A safra de 2022 apresentou um perfil de acidez diferente do de 2023, como explicou Szepsy durante a degustação. É um vinho menos imediatamente acessível, com maior tensão e que requer mais tempo para se integrar, mas atinge um patamar de complexidade e qualidade que deixaria muitos fãs de vinhos brancos da Borgonha de queixo caído.
Úrbán 73 2022, 13,5%
O número 73 identifica uma parcela específica de apenas 0,3 hectare do vinhedo Úrbán, localizado na parte ocidental de Mád, numa encosta voltada para leste. São vinhas velhas plantadas em 1938, com densidade próxima de 10 mil plantas por hectare. Os solos são pedregosos, com conglomerados vulcânicos e materiais argilosos, o que impõe limitações significativas ao crescimento das videiras. Um dos destaques da degustação: perfil linear, tenso e preciso, com notas de pedra de isqueiro e um toque mentolado, acompanhado de ótima concentração e múltiplas camadas. A fruta aparece de forma mais contida do que no Úrágya, degustado em seguida, enquanto a acidez e a sensação fenólica conferem maior definição ao paladar. Apesar da fermentação e do estágio em barricas 100% novas, a madeira está perfeitamente integrada. Um Furmint de grande personalidade, que privilegia a precisão e a profundidade.
Úrágya 63 2022, 13,5%
O vinhedo Úrágya fica próximo ao Úrbán, também na parte ocidental de Mád, mas sua parcela 63 apresenta orientação mais voltada para o sul. Videiras plantadas em 1961, em terreno igualmente pedregoso. O vinhedo tem importância histórica para a família: foi adquirido por István Szepsy, pai, em 2000, com a intenção original de produzir vinhos doces. Como a área não apresentou as condições desejadas para a formação de botrytis, ele decidiu elaborar um Furmint seco. Na comparação com o Úrbán 73, o Úrágya apresenta uma expressão mais aberta e frutada, com palato mais redondo, maior amplitude e textura envolvente. A fruta é mais generosa, mas mantém a precisão, com um conjunto de boa acidez, profundidade e complexidade. Szepsy explicou que é o vinho de parcela única mais apreciado da vinícola entre seus consumidores, enquanto o Úrbán costuma atrair especialmente os profissionais do vinho.
Szent Tamás 2024, 13,5%
Szent Tamás é um dos vinhedos historicamente mais prestigiados de Mád, localizado em encostas com diferentes orientações. Seus solos apresentam formações vulcânicas complexas e materiais argilosos. A parcela selecionada para este vinho foi plantada em 1957. Szepsy considera Szent Tamás a referência máxima da vinícola para demonstrar o potencial de seus vinhedos. Um vinho ainda muito jovem, com estrutura concentrada, grande profundidade e complexidade que se desenvolve progressivamente no palato. Comparado aos anteriores, apresenta notas de fumaça mais evidentes, em parte devido ao uso de barricas com tostagem média, enquanto os demais vinhos de parcela única utilizam tostagens entre leve e média. É também o mais complexo e com mais camadas, combinando características de tensão e concentração encontradas no Úrbán com uma expressão mais ampla. Um vinho de altíssima gama, que ainda precisa de mais tempo para atingir seu ponto ideal.