Em mais um passo para a valorização de suas tradições, as autoridades da DOCa Rioja anunciaram a conclusão de um amplo trabalho de identificação, documentação e certificação de suas vinhas velhas. O levantamento reconheceu 8.642 hectares de videiras plantadas em 1980 ou antes, o que corresponde a aproximadamente 13% da área da denominação. Esses vinhedos passam a integrar a categoria Viñedo Viejo, criada a partir de cinco anos de análise documental, georreferenciamento, auditorias e inspeções realizadas pelos serviços técnicos do Conselho Regulador.
Dentro desse patrimônio, porém, há vinhas muito mais antigas. A Rioja certificou 240 parcelas como Viñedo Centenario, somando 74,83 hectares. Para receber a classificação, ao menos 85% das videiras da parcela devem ter mais de 100 anos. Outros 100,62 hectares apresentam presença relevante de plantas centenárias, mas ainda não atingem essa proporção. A denominação de origem também iniciou a instalação de monólitos de aço nas parcelas certificadas, dando maior visibilidade ao projeto e aproximando preservação, comunicação e enoturismo.
O que é uma vinha velha?
Existe muita controvérsia quanto à definição precisa do que é uma vinha velha. Para buscar uma solução, em 2024, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) estabeleceu uma referência internacional. Para a OIV, uma vinha velha deve ter idade documentada de pelo menos 35 anos, enquanto uma parcela só pode ser reconhecida quando ao menos 85% das plantas atendem a esse critério.
A Rioja, porém, tradicionalmente adota um limite mais rigoroso. Ao considerar apenas os vinhedos plantados em 1980 ou antes, a categoria regional reúne atualmente plantas com pelo menos 45 anos de idade. No caso das vinhas centenárias, não basta encontrar algumas cepas isoladas com mais de cem anos, elas precisam representar a grande maioria da parcela.
A certificação reduz o uso impróprio das expressões “vinha velha” e “vinha centenária”, ao menos nesta região espanhola. A idade precisa ser comprovada, a área é incorporada ao cadastro vitícola e as plantas passam por verificação em campo. O projeto transforma, assim, um argumento frequentemente utilizado na comunicação das vinícolas em uma categoria documentada e auditável.
Um patrimônio que já foi muito maior
O movimento atual contrasta com a evolução do vinhedo de Rioja ao longo das últimas décadas. Em 1983, as vinhas com mais de 40 anos de idade representavam cerca de 34% dos vinhedos. Esta proporção caiu para 30,5% em 1990, 18,1% em 2000, 13,2% em 2007, 12,5% em 2008 e, em 2014, para apenas 9,9%. Esta queda significativa mostra que o envelhecimento natural dos vinhedos não compensou a incorporação de grandes áreas de vinhas jovens. Vale lembrar que a região viveu uma fase intensa de plantio de novos vinhedos, sobretudo entre 1996 e 2005, quando foram plantados cerca de 21,3 mil hectares, quase um terço da superfície que permanecia inscrita em 2024.
A identificação atual das vinhas antigas representa, portanto, uma mudança de direção. Parcelas que, durante décadas, foram associadas à baixa produtividade, à dificuldade de mecanização e a custos elevados, passam a ser reconhecidas como patrimônio histórico, genético, paisagístico e comercial.
Rioja diante de outras regiões espanholas
Com 8.642 hectares documentados, Rioja possui o maior patrimônio oficial de vinhas velhas da Espanha. A comparação mais próxima é com Utiel-Requena, que contabilizava 8.487 hectares de Bobal com mais de 45 anos, o que equivale a 43,5% da área ocupada pela variedade. Rioja apresenta um volume ligeiramente maior, mas Utiel-Requena possui uma concentração proporcional muito superior.
Em Bierzo, a superfície total é bem menor, próxima de 2.300 hectares, mas a idade média dos vinhedos é elevada e as parcelas antigas ocupam uma proporção muito maior da paisagem, superior a 50%. Jumilla também conserva uma presença importante de vinhas velhas de Monastrell, inclusive em áreas em pé-franco. No Priorato, o volume absoluto é reduzido, mas as parcelas antigas de Garnacha e Cariñena possuem enorme peso qualitativo e comercial, sobretudo por seus baixos rendimentos e pelo cultivo em encostas de llicorella.
O principal ponto de interrogação é Castilla-La Mancha. A comunidade autônoma possui mais de 400 mil hectares de vinhedos, um volume muito superior ao de Rioja. É provável que a soma de suas parcelas antigas ultrapasse a da Rioja, sobretudo nas vinhas tradicionais de Airén e Cencibel. Não existe, porém, um levantamento oficial por idade que permita confirmar essa hipótese.
Por que preservar vinhas velhas?
A idade não garante, por si só, maior qualidade. Existem videiras antigas pouco equilibradas ou em más condições sanitárias, assim como vinhas jovens capazes de produzir uvas excelentes. O interesse recai sobre o conjunto de características que algumas plantas desenvolvem ao longo de décadas. São rendimentos naturalmente menores, maior regularidade produtiva e raízes capazes de explorar uma área mais ampla do solo.
Outro benefício é a diversidade genética. Uma parcela centenária pode conservar diferenças entre plantas da mesma variedade, antigas seleções locais, mutações e castas minoritárias misturadas à variedade principal. As vinhas antigas também preservam formas tradicionais de condução, densidades de plantio tradicionais e a memória das comunidades que mantiveram essas parcelas. O problema é econômico: normalmente produzem menos, exigem mais trabalho manual e têm custos elevados por quilo de uva. A certificação pode aumentar sua visibilidade, mas a preservação dependerá de uma remuneração que torne sua manutenção viável.
Passado e futuro
A preservação do patrimônio de vinhas velhas olha tanto para o passado quanto para o futuro. “Não é por acaso que a maior concentração de vinhedos velhos e centenários da Espanha se encontra em Rioja. Desde sua criação, a denominação construiu seu prestígio sobre a mesma premissa: a busca permanente pela excelência, e essa aposta histórica na qualidade explica por que hoje conserva um patrimônio vitivinícola excepcional”, afirmou a presidente do Conselho Regulador, Raquel Pérez Cuevas.
A presidente do Conselho Regulador também destacou o valor estratégico dessas vinhas no contexto do aquecimento global. Por conta de suas raízes profundas, desenvolvidas ao longo de décadas, conseguem acessar reservas de água e nutrientes inacessíveis a vinhedos mais jovens. Isso favorece maior estabilidade na produção e melhor adaptação a fenômenos extremos, como a seca e as altas temperaturas.
Fonte: Consejo Regulador de la Rioja; Organização Internacional da Vinha e do Vinho; Pliego de Condiciones de la DOP Bierzo; Consejo Regulador DOP Jumilla; Consell Regulador da DOQ Priorat
Imagem: gerada por IA com ChatGPT