Arrancar vinhedos: a epopeia francesa para tentar equilibrar o mercado do vinho

Last Updated on 1 de abril de 2026 by Wine Fun

O desequilíbrio entre o consumo e a produção de vinho é um dos temas mais debatidos na viticultura europeia hoje. Com a consistente redução do consumo em vários mercados e a dificuldade de reequilibrar o setor do lado comercial, a redução do potencial produtivo voltou ao centro da política agrícola, sobretudo na França. Nos últimos três anos, o país passou de um debate sobre crise conjuntural a uma política explícita de arranque financiado pelo Estado. Primeiro, foi em Bordeaux; depois, em escala nacional; e, agora, numa segunda rodada nacional, já em curso em 2026.

Mas para entender o que está acontecendo agora, vale entender melhor a tendência de longo prazo. E a França é um país onde isso pode ser feito, já que há uma série histórica que mede a área de vinhedos desde 1923. E o que dizem os números? O país começou o século XX com cerca de 1,5 milhão de hectares, o que o colocaria em um confortável primeiro lugar no ranking.

Menos vinhedos

Porém, a realidade hoje é muito diferente. Em 2024, a França contava com cerca de 767 mil hectares de vinhedos, dos quais 734 mil em produção. Em outras palavras, em pouco mais de 100 anos, a área de vinhedos na França caiu pela metade. Só a diferença representa um pouco menos do que a soma de todos os vinhedos atuais na Argentina, no Chile, na Austrália, em Portugal e na África do Sul. Portanto, não há como negar que há um movimento secular de redução dos vinhedos franceses.

Com perdas acumuladas próximas de 50% neste longo intervalo, na média, isso equivale a uma contração de cerca de 0,5% ao ano ao longo de um século. Esse número é importante porque ajuda a deixar claro um ponto: a França já vinha perdendo área há décadas. O que muda agora não é simplesmente a constatação desta queda, mas o fato de ela voltar a ser organizada e financiada publicamente, com forte concentração em algumas regiões e com objetivo econômico explícito.

Exemplos do passado

Também não é correto tratar o momento atual como o período de retração mais intenso desse longo período. A grande fase de arranque estrutural foi anterior. Os dados do Languedoc-Roussillon mostram que as políticas adotadas pela Comunidade Europeia em 1980 tiveram um enorme impacto. Elas desencadearam um ciclo massivo de redução de área que se estendeu até 2011: só no departamento de Hérault, nas cercanias de Montpellier, na costa mediterrânea francesa, metade dos vinhedos foi arrancada entre 1980 e 2011.

Em escala nacional, os dados mostram que a política comunitária de arranque, aplicada desde 1988, resultou no abandono definitivo de 88.600 hectares na França. Ou seja, o grande choque histórico de redução não começou agora: pertence, sobretudo, ao ciclo dos anos 1980 aos anos 2000.

Cortando vinhedos, mas com outro foco regional

Ainda assim, o presente tem algo de novo. O problema deixou de ser apenas estrutural e distante para, depois de 2020, se transformar em crise aguda de mercado. A sequência de fatores pode ser listada cronologicamente: tarifas de Trump em 2019, covid em 2020, geada, granizo e seca em 2021, guerra na Ucrânia em 2022, inflação e alta dos custos de insumos, tudo isso combinado com queda no consumo, em especial dos tintos. Foi nesse momento que o governo passou a falar abertamente em reduzir o potencial de produção de vinho, ou seja, em extirpar vinhedos em larga escala.

A novidade é que o laboratório dessa nova fase não está no sul da França, mas sim em Bordeaux, uma das áreas de maior prestígio do país. Aqui, porém, antes de falar de Bordeaux, é preciso distinguir duas coisas. Uma é o Bordelais enquanto grande área administrativa; outra é a Gironde, que concentra a maior parte do vinhedo bordalês efetivo. O chamado Bassin Bordeaux-Aquitaine reúne Bordeaux, Dordogne, Corrèze e parte do Lot-et-Garonne e, portanto, é maior do que a Gironde sozinha.

Em 2024, por exemplo, as estatísticas indicavam 112 mil hectares plantados no Bordelais, enquanto os números registravam 101 mil hectares de vinhas em produção apenas na Gironde. Isso ajuda a explicar por que, dependendo da fonte, “Bordeaux” pode parecer ter tamanhos diferentes: as unidades estatísticas não são as mesmas.

Bordeaux como primeira etapa

Foi na Gironde que surgiu o primeiro grande plano contemporâneo de arranque. Em 2023, o governo federal, a região Nouvelle-Aquitaine e a associação de produtores locais (CIVB) montaram um dispositivo duplo. De um lado, um braço financiado pelo Estado, associado à extração de vinhedos; de outro, um financiado pelo CIVB, voltado à diversificação agrícola. A ajuda consistia em uma compensação de € 6.000 por hectare aos viticultores. As inscrições iniciais chegaram a cerca de 8.000 hectares, totalizando 8.364 hectares em 2025.

E o impacto nos vinhedos? Dados mostraram que, entre a colheita de 2023 e a de 2025, a Gironde perdeu quase 16% de seus vinhedos, fechando 2005 com menos de 92.000 hectares cultivados. No total, 18.000 hectares de vinha haviam sido arrancados no território, dos quais mais de 12.000 de forma definitiva. Parte disso decorreu do esquema regional, porém também medidas que atingiam também outras regiões da França ajudam a explicar esta forte contração

Programa federal

Em paralelo, em setembro de 2024, o Ministério da Agricultura da França notificou à Comissão Europeia um dispositivo nacional para reduzir a área de vinhedos, com indenização de até € 4.000 por hectare, totalizando € 120 milhões. O objetivo teórico era claro: extração de algo próximo de 30.000 hectares. Na prática, foram apresentados 5.418 pedidos, cobrindo 27.461 hectares e resultando em € 110 milhões de ajuda. Mais do que o valor, porém, a geografia desse plano nacional é talvez o dado mais importante para entender o impacto sobre o vinho francês.

Os maiores volumes vieram do departamento de Aude, com 4.955 hectares; da Gironde, com 4.219 hectares; do Gard, com 4.015 hectares; do Hérault, com 3.211 hectares; e dos Pyrénées-Orientales, com 2.613 hectares. Em outras palavras, a política não teve distribuição homogênea pelo país. Ela se concentrou no arco sul e sudoeste, sobretudo em três grandes conjuntos: a Occitanie, o Bordelais e o eixo do Rhône. O próprio Senado francês resumiu a situação em 2025. “Os dois grandes dispositivos públicos recentes permitiram arrancar cerca de 9.200 hectares na Gironde, para um total de 26.279 hectares no plano nacional, com aproximadamente 80% das superfícies concentradas justamente nessas três regiões”.

Esse ponto regional é fundamental. A Occitanie (que inclui Languedoc-Roussillon e áreas do sudoeste francês) aparece como a principal zona de arranque em volume absoluto. Isso faz sentido numa região que continua sendo a maior zona de vinhedos na França e já havia concentrado dois terços dos 150 mil hectares perdidos entre 1994 e 2023. O Bordelais, por sua vez, aparece menos como o maior volume absoluto e mais como o caso de maior impacto relativo e simbólico. Já o Vale do Rhône e a Provence entraram como o terceiro grande polo do ajuste.

Uma nova etapa: mais um plano nacional

Em 2025, o governo concluiu que o primeiro plano nacional não bastava. Em novembro daquele ano, anunciou um novo Plan National de Sortie de Crise, centrado novamente no arranque definitivo, desta vez com um orçamento total de € 130 milhões. A ideia era a mesma da rodada anterior: reequilibrar oferta e demanda e restaurar a viabilidade do cultivo nas áreas mais afetadas. A resposta dos viticultores foi rápida. Um documento oficial mostra que, no final do prazo de aceitação da proposta de ajuda governamental, em 11 de março de 2026, havia 5.824 dossiês, totalizando 27.929 hectares.

Destes vinhedos, 28% estão na Gironde (Bordeaux), 16% na Aude, 12% no Gard, 10% no Hérault e 7% nos Pyrénées-Orientales. No total, 83% dessas áreas produzem vinhos tintos e 65% fazem parte de denominações de origem. Estes dados confirmam que a crise atinge principalmente os vinhos tintos de denominação, especialmente os de Bordeaux e de Côtes-du-Rhône. Além disso, uma parcela relevante dos pedidos corresponde ao encerramento total de propriedades. A proporção chegou a 33% no Gers (departamento onde estão inseridas Gasconha, Cognac e Armagnac) e 27% na Gironde, o que indica saída definitiva de produtores, muitas vezes sem sucessão.

Apesar da dimensão do programa, o resultado ficou aquém das metas. Os cerca de 28.000 hectares representam uma redução de apenas 3,6% da área vitícola francesa (estimada em cerca de 766.000 ha em 2025). Levando em conta o orçamento de € 130 milhões, o plano previa a eliminação de até 32.500 hectares. Regiões como Cognac ficaram bem abaixo do esperado, mesmo com incentivos maiores (até 10.000 €/ha), indicando resistência ao arranque ou condições específicas de mercado diferentes do restante do país.

Será suficiente?

O resultado combinado de todas estas iniciativas é revelador. Apesar de tudo o que ocorreu, se olharmos apenas a área de vinhedos, a França ainda não passa por uma queda nacional fora de escala histórica. Entre 2021 e 2024, foram cerca de 18 mil hectares de vinhedos em produção a menos. Em outras palavras, a perda visível desde o início da década ainda é relativamente moderada em comparação com períodos de forte ajuste. Nos últimos anos, a queda mais significativa foi entre 2023 e 2024, quando a superfície em produção caiu 11.585 hectares em um único ano, o que equivale a cerca de 1,6%.

Os dados não mentem. A França não está assistindo, pelo menos por enquanto, nem de longe, o maior colapso de área de sua série histórica. O país já viveu, entre os anos 1980 e 2000, um ciclo de arranque mais profundo e mais longo. O que distingue o presente é outra coisa: depois de anos em que a superfície continuava encolhendo de forma relativamente difusa, agora há foco. O governo federal voltou a organizar a contração do vinhedo de maneira explícita, territorial e financiada. Bordeaux virou o laboratório; a Occitanie concentrou os maiores volumes; o Rhône entrou como terceira frente.

Porém, afirmar se o novo mapa do vinho francês resultante desses dispositivos é sustentável ou eficaz é um enorme ponto de interrogação. A França certamente sairá com menor área de vinhedos e queda no volume de produção de vinhos tintos, mas ainda parece cedo para saber se isso será suficiente para resolver o desequilíbrio entre oferta e demanda de vinho.

Fontes: Agreste – La viticulture française depuis 1923, Ministère de l’Agriculture et de la Souveraineté Alimentaire; Infographie – Congrès mondial de la vigne et du vin 2024, Agreste; Données économiques de la filière viticole française, FranceAgriMer; Soutien structurel à la filière viticole – dispositif de réduction du potentiel viticole, Ministère de l’Agriculture et de la Souveraineté Alimentaire; Filière viticole : plan national de sortie de crise, Ministère de l’Agriculture et de la Souveraineté Alimentaire; Conseil de bassin viticole Bordeaux-Aquitaine – mobilisation de l’État, DRAAF Nouvelle-Aquitaine; Réunion de la cellule opérationnelle sur la viticulture, Préfecture de la Gironde; La viticulture face à la crise – séance publique, Sénat français; Le vignoble français a perdu 150 000 hectares en trente ans, Réussir Vigne; Prime à l’abandon définitif et recomposition du vignoble du Languedoc-Roussillon, Méditerranée; Vitisphére

Imagem: Gerada via IA com Magic Media

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