Roussillon e seus históricos Vins Doux Naturels

Uma região vinícola francesa que produz vinhos que merecem mais atenção. Embora frequentemente associado ao Languedoc, o Roussillon possui uma identidade única. Menor e geograficamente mais isolado, situado entre o Mediterrâneo, os Pireneus e a cadeia montanhosa de Corbières, reúne uma diversidade incomum de terroirs, variedades e estilos de vinho. Vinhos brancos, rosés e tintos secos convivem com uma categoria que, durante muito tempo, esteve no centro da produção regional: os Vins Doux Naturels, ou simplesmente VDNs.

Mesmo com o aumento da importância dos vinhos secos, os VDNs continuam ocupando uma posição relevante no Roussillon. Em 2023, representavam 24% da área plantada e 17% de todo o vinho produzido na região. Sua importância vai muito além das fronteiras locais: atualmente o Roussillon concentra cerca de 80% da produção francesa de Vins Doux Naturels.

Mais do que um único estilo de vinho, porém, VDN define uma família bastante diversificada. Existem brancos aromáticos elaborados para preservar frescor e fruta, tintos jovens dominados pela Grenache e vinhos brancos e tintos submetidos a longos períodos de envelhecimento oxidativo. Para entender essas diferenças, é preciso, primeiro, compreender o conceito de VDN.

O que são os Vins Doux Naturels?

Os Vins Doux Naturels são vinhos fortificados nos quais a fermentação é interrompida, ou seja, antes que as leveduras transformem todo o açúcar das uvas em álcool. O processo de mutage, como é conhecido na França, inclui a adição de álcool, resultando em um vinho que conserva parte do açúcar naturalmente presente nas uvas (o nome Vin Doux Naturel deixa isso evidente) e, ao mesmo tempo, apresenta uma graduação alcoólica mais elevada.

No Roussillon, as uvas destinadas aos VDNs precisam atingir uma elevada concentração de açúcar antes da elaboração. Depois de iniciada a fermentação, acrescenta-se álcool neutro de origem vínica a 96%, normalmente na proporção de 5% a 10% do volume do mosto em fermentação. O aumento da graduação alcoólica interrompe a atividade das leveduras e preserva parte dos açúcares naturais das uvas.

Nos tintos, ainda existe a possibilidade do chamado mutage sur marc: o álcool é adicionado enquanto o vinho permanece em contato com as cascas. Além de interromper a fermentação, a presença do álcool intensifica a extração de cor, taninos e compostos aromáticos. Essa maceração pode durar pelo menos 15 dias e, em alguns casos, ultrapassar três semanas.

As principais uvas

Duas famílias de variedades dominam a elaboração de VDNs no Roussillon. Moscatel Branco e Moscatel de Alexandria são o coração dos VDNs brancos aromáticos. São as únicas variedades utilizadas em Muscat de Rivesaltes e também podem participar de outros VDNs brancos, contribuindo com aromas florais, de uvas frescas, cítricos e frutas de caroço.

A Grenache forma o outro grande eixo da região. Grenache Noir é fundamental nos VDNs tintos de Banyuls, Maury e Rivesaltes, enquanto Grenache Blanc e Grenache Gris aparecem principalmente nos estilos brancos e oxidados. Macabeu e Tourbat, também conhecida como Malvoisie du Roussillon, completam o grupo de variedades principais, enquanto Carignan e Syrah aparecem de forma limitada em algumas denominações.

Qual a importância dos VDNs?

Atualmente, existem cinco AOPs reconhecidas dedicadas aos Vins Doux Naturels no Roussillon: Muscat de Rivesaltes, Rivesaltes, Maury, Banyuls e Banyuls Grand Cru. Em 2023, a produção conjunta atingiu 82.800 hectolitros, equivalentes a aproximadamente 110 milhões de garrafas de 750 ml. Muscat de Rivesaltes é de longe a maior delas, com pouco mais de 50.000 hectolitros em 2023 (61% do total), seguida por Rivesaltes, com cerca de 22.600 hectolitros (27%). Banyuls e Banyuls Grand Cru, somados, ficaram pouco acima de 7.100 hectolitros (9%), enquanto Maury produziu menos de 2.800 hectolitros (3%).

Roussillon e suas sub-regiões

A produção, entretanto, não deve ser confundida com as vendas. Em 2023, foram comercializados 97.111 hectolitros de VDN, volume que pode incluir vinhos de safras anteriores. Isso é particularmente importante em uma categoria na qual alguns estilos permanecem por anos, em processo de envelhecimento. Dentro dessas vendas, Muscat de Rivesaltes respondeu por 55%, Rivesaltes por 30%, Banyuls e Banyuls Grand Cru por 12% e Maury por 3%.

Múltiplos estilos: os VDNs jovens

Apesar de compartilharem o processo de mutage, os VDNs podem seguir caminhos muito diferentes após a fortificação. Nos estilos destinados a preservar a fruta e os aromas primários, o caminho é limitar o contato com o oxigênio durante o amadurecimento. É o caso de Muscat de Rivesaltes e de categorias como Blanc, Grenat e Rimage. Nos moscatéis, predominam aromas florais, cítricos, de uva fresca e de frutas de caroço; nos tintos jovens, a Grenache pode apresentar notas de morango, framboesa, ameixa e outras frutas vermelhas e negras.

A terminologia varia conforme a denominação. O termo Grenat tem uso em Rivesaltes e Maury para tintos jovens dominados pela Grenache Noir. Em Banyuls, Rimage apresenta o estilo equivalente, também elaborado com o objetivo de preservar a cor e a fruta. Existem ainda estilos Blanc e Rosé em algumas denominações, o que mostra que VDN não significa necessariamente vinho tinto nem vinho submetido a longo envelhecimento.

Os estilos oxidativos

No outro extremo, estão os VDNs deliberadamente envelhecidos em contato com o oxigênio. O vinho pode permanecer durante anos em grandes recipientes de madeira ou tanques, e, tradicionalmente, alguns produtores utilizam também recipientes parcialmente cheios ou bonbonnes de vidro expostas ao sol e às variações de temperatura antes de o envelhecimento continuar na adega. Com o tempo, a fruta fresca e os aromas primários dão lugar a frutas secas, nozes, especiarias, café e cacau.

A própria terminologia ajuda a identificar esses estilos. Ambré inclui vinhos (sobretudo brancos) que desenvolvem tonalidades âmbar durante o envelhecimento, enquanto Tuilé descreve tintos cuja cor evolui para tons de telhas. Hors d’Âge pode identificar determinados vinhos submetidos a envelhecimento prolongado, com o vinho mais jovem tendo pelo menos cinco anos, enquanto Rancio indica o desenvolvimento do caráter particular de mesmo nome resultante do envelhecimento.

Muscat de Rivesaltes

Muscat de Rivesaltes é a maior denominação de VDN do Roussillon e possui um perfil bastante definido. Elaborados exclusivamente com Moscatel Branco e Moscatel de Alexandria, os vinhos buscam preservar a intensidade aromática dessas variedades, com notas florais, cítricas, de uva fresca, pêssego e outras frutas de caroço. A denominação abrange uma área ampla, incluindo 90 comunas dos Pyrénées-Orientales e outras nove no departamento de Aude.

Em 2023, seus 2.654 hectares de vinhedos produziram 50.333 hectolitros, o equivalente a cerca de 67 milhões de garrafas. O rendimento máximo autorizado é de 30 hl/ha, embora o rendimento efetivo em 2023 tenha sido de apenas 19 hl/ha. O vinho deve conter pelo menos 100 g/L de açúcar residual. Existe ainda o Muscat de Noël, destinado ao consumo muito jovem e comercializado entre a terceira quinta-feira de novembro e o final de janeiro seguinte à colheita.

Rivesaltes

Rivesaltes provavelmente apresenta a maior diversidade de estilos entre os VDNs da região. Sua área abrange 86 comunas dos Pyrénées-Orientales e nove de Aude e permite a produção de Grenat, Rosé, Ambré e Tuilé, além das menções Hors d’Âge e Rancio. Em 2023, seus 1.085 hectares produziram 22.624 hectolitros, equivalentes a aproximadamente 30,2 milhões de garrafas.

O Rivesaltes Grenat é elaborado a partir de Grenache Noir e passa por envelhecimento protegido da oxidação por pelo menos oito meses, sendo engarrafado dentro dos dois anos seguintes à colheita. Já o Rivesaltes Tuilé segue o caminho oposto em termos de oxidação e requer pelo menos 24 meses de envelhecimento oxidativo. Rivesaltes Ambré, elaborado a partir de variedades autorizadas de diferentes cores, também passa por pelo menos 24 meses em ambiente oxidativo, com a participação dos moscatéis limitada a 20%.

Maury

Maury encontra-se no noroeste do Roussillon, com uma produção muito pequena: em 2023 eram apenas 155 hectares, responsáveis por 2.780 hectolitros, equivalentes a aproximadamente 3,7 milhões de garrafas. Grenache, sobretudo Grenache Noir, ocupa posição central nos estilos tintos. Maury Grenat deve ter pelo menos 75% de Grenache Noir e passar por pelo menos oito meses em envelhecimento protegido da oxidação, incluindo três meses em garrafa. Já Maury Tuilé, também dominado pela Grenache Noir, segue o caminho oxidativo e exige pelo menos 30 meses de envelhecimento.

Maury também pode produzir Blanc e Ambré com variedades como Grenache Blanc, Grenache Gris, Macabeu, Tourbat e Moscatel. O Ambré exige um mínimo de 30 meses de envelhecimento oxidativo, enquanto Hors d’Âge exige pelo menos cinco anos. A mesma área também dá origem a Maury Sec, mas este é um vinho seco e não um VDN.

Banyuls

Banyuls não ganhou fama apenas pelos seus vinhos. Se o Douro atrai atenção em Portugal também pelo seu visual, Banyuls desempenha este papel na França, com vinhedos que se distribuem por encostas íngremes voltadas para o Mediterrâneo, nas comunas de Collioure, Port-Vendres, Banyuls-sur-Mer e Cerbère. Terraços e sistemas tradicionais de controle da água e da erosão permitem cultivar videiras em áreas onde a mecanização é extremamente difícil.

Grenache Noir deve representar pelo menos 50% de Banyuls, mas a denominação admite estilos diversos. Banyuls Rimage é um tinto jovem, envelhecido e protegido da oxidação por pelo menos 12 meses, para preservar a fruta e a cor. Também existem Banyuls Blanc e Rosé, além dos estilos Ambré e Tuilé, que seguem um caminho oxidativo. O mutage sur marc pode ser utilizado nos tintos mais concentrados, prolongando o contato com as cascas depois da adição do álcool.

Não há segmentação dos dados de produção entre Banyuls e Banyuls Grand Cru. Em 2023, as duas denominações somaram 515 hectares e produziram 7.101 hectolitros, equivalentes a aproximadamente 9,5 milhões de garrafas. O rendimento efetivo foi de apenas 14 hl/ha, menos da metade do máximo autorizado de 30 hl/ha.

Banyuls Grand Cru

Banyuls Grand Cru ocupa a mesma área geográfica de Banyuls, mas impõe exigências mais restritas. Grenache Noir deve representar pelo menos 75%, e a denominação é utilizada apenas para VDNs tintos concentrados destinados ao envelhecimento prolongado. O vinho deve amadurecer por pelo menos 30 meses em madeira, em ambiente oxidativo. Durante esse período, os aromas evoluem progressivamente para notas de frutas secas, especiarias, cacau, café e outras notas associadas ao envelhecimento oxidativo.

Uma tradição que vale a pena conhecer

Portanto, ao se deparar com um Vin Doux Naturel de qualquer uma dessas denominações, fica mais fácil compreender o que há por trás do nome e a importância que esses vinhos ainda têm no Roussillon. São vinhos de enorme tradição, produzidos em estilos diferentes entre si, e que continuam a conferir à região um peso único nesse segmento, já que a vasta maioria dos Vins Doux Naturels franceses provém do Roussillon.

Para quem quiser explorar um pouco mais esse universo, também vale a pena comparar os VDNs com outros grandes vinhos fortificados produzidos no mundo, como Porto, Madeira e os Rutherglen Muscat, da Austrália. É um universo fascinante que mostra como um princípio de elaboração semelhante pode dar origem a vinhos com identidades completamente distintas.

Fontes: Conseil Interprofessionnel des Vins du Roussillon (CIVR), Wines of Roussillon Press Pack 2024; Wines of Roussillon, Vins Doux Naturels; WSET, Level 4 Diploma in Wines – D5 Fortified Wines.

Mapa e imagem: Wines of Roussillon

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