Collio, uma região de fronteira entre territórios e expressões de vinhos brancos

O Friuli Venezia Giulia é uma área única na Europa, situada em uma verdadeira encruzilhada entre as culturas latina, germânica e eslava. E uma de suas principais regiões vinícolas divide literalmente seu terroir com um país vizinho, a Eslovênia. Mais do que isso, o Collio está entre as áreas mais importantes da Itália para a produção de vinhos brancos finos.

No extremo nordeste do Friuli Venezia Giulia, esta denominação de origem construiu sua reputação com base em brancos secos de alta qualidade, apoiados em um terroir de colina muito específico e em uma combinação rara de variedades internacionais e locais. É uma área predominantemente dedicada a uvas brancas, com cerca de 89% da área plantada. Neste território, reinam quatro castas – Pinot Grigio, Sauvignon Blanc, Friulano e Ribolla Gialla – que concentram quase 69% dos vinhedos.

Ao mesmo tempo, o Collio também se tornou um dos nomes mais importantes do universo dos vinhos brancos macerados. Não em volume, pois estes vinhos representam apenas uma pequena parcela da produção, mas, sobretudo, em termos de tipicidade. Os chamados vinhos laranja estão fortemente ligados a uma faixa muito específica do território, sobretudo em Oslavia e na continuidade natural com o Brda esloveno. Porém, o núcleo da denominação continua sendo o dos grandes brancos secos tradicionais, varietais ou cortes, de perfil preciso, estruturado e frequentemente longevo.

Localização do Collio

Longa história

A viticultura no Collio tem raízes antigas. Há registros de cultivo da videira desde a época romana, e documentos posteriores indicam que o vinho já fazia parte da economia local na Idade Média. Ao longo dos séculos, a área consolidou-se como um território agrícola fortemente ligado à viticultura, num espaço de fronteira onde influências latinas, eslavas e germânicas conviveram de forma contínua.

Entre os séculos XVIII e XIX, a viticultura local entrou numa fase mais estruturada. O desenvolvimento de vinhedos em encostas e terraços ajudou a adaptar o cultivo ao relevo de colina. A partir da segunda metade do século XIX, a introdução de variedades francesas e alemãs deu novo impulso ao perfil moderno da região. Pouco depois, o congresso enológico realizado em Gorizia em 1891 marcou uma etapa importante na reconstrução da viticultura após a filoxera.

O Castelo de Gorizia

O Collio contemporâneo

A fase mais recente da vinicultura no Collio começa a tomar forma com a criação do Consorzio em 1964 e com o reconhecimento da DOC em 1968, entre as mais antigas da Itália. A partir daí, a região reforçou sua identidade como polo de brancos de alta qualidade, apoiada em técnicas modernas de vinificação e em uma leitura mais precisa de suas variedades e de seus solos.

Nas últimas décadas, a imagem do Collio passou a incluir também os vinhos brancos de maceração. Esse movimento ganhou força, sobretudo a partir dos anos 1990, e projetou internacionalmente uma parte específica do território. O resultado foi a convivência de duas leituras complementares da denominação,. De um lado, os brancos clássicos de grande definição e, de outro, os arancione (como são chamados na Itália) que ajudaram a recolocar o Friuli como uma espécie de Meca mundial para este estilo de vinhos.

Localização e condições naturais

O Collio ocupa a faixa colinar setentrional da província de Gorizia, entre os rios Isonzo e Judrio, que ajudam a definir a fronteira com a Eslovênia. É um território de múltiplas colinas, com altitudes moderadas e forte vocação para a elaboração de vinhos. A continuidade geográfica com o Brda esloveno ajuda a explicar por que a fronteira política nunca interrompeu, de fato, a lógica histórica e agrícola da área. A viticultura é claramente associada às encostas, e as próprias regras de produção da denominação de origem excluem os vinhedos de fundo de vale e de planície. No Collio, a colina é uma condição obrigatória para o vinhedo.

A “meia lua” de colinas do Collio

O clima é temperado e resulta da combinação da proximidade do mar Adriático e da proteção oferecida pela cadeia montanhosa das Prealpi Giulie. As temperaturas médias anuais ficam entre 13 e 14,5 °C, com invernos frios, verões bem quentes e muita chuva. De fato, a precipitação varia entre 1.350 e 1.400 mm por ano (50% a mais do que em Bordeaux) e mais de metade cai durante o período vegetativo. Em termos práticos, isso significa uma região sem extremos térmicos muito marcados, mas com umidade suficiente para exigir atenção constante no vinhedo.

Os solos são dominados pela ponca, formação de margas e arenitos de origem sedimentar, bem drenados e de fertilidade moderada. Trata-se de uma base geológica decisiva para a identidade dos vinhos do Collio, em especial dos brancos. Por conta deste solo e das condições meteorológicas, são vinhos que costumam combinar volume de boca, firmeza estrutural e uma sensação salina e mineral.

Área plantada e produção

A área plantada total chega a cerca de 1.300 hectares. Desse total, as uvas brancas respondem por 89%, o que ajuda a explicar a clara vocação da denominação. Em volume, o Collio produz cerca de 52.500 hectolitros por ano, o que equivale a aproximadamente 7 milhões de garrafas. É um número suficientemente relevante para conferir peso econômico à denominação, mas ainda pequeno o bastante para reforçar sua imagem de região qualitativa e especializada.

A distribuição de variedades também ajuda a compreender essa identidade. A distribuição varietal é bastante concentrada. Pinot Grigio ocupa 316 hectares, o equivalente a 24% da área, seguido por Sauvignon Blanc, com 225 hectares (17%), Friulano (nome local da variedade bordalesa Sauvignonasse), com 183 hectares (14%), e autóctone Ribolla Gialla, com 163 hectares (13%). Em seguida, aparecem Chardonnay, com 7%, Merlot, com 5%, Malvasia, Cabernet Franc e Pinot Bianco, todas em torno de 3%. É uma composição de castas que combina nomes internacionais de forte apelo comercial com castas locais ou fortemente associadas ao Friuli, o que confere ao Collio uma distribuição única de variedades.

Uvas e estilo dos vinhos

As regras da denominação são bastante flexíveis em relação a suas tipologias. O disciplinare prevê 19 tipologias, entre brancos, tintos, varietais e vinhos de corte, além da possibilidade de menção Riserva para as categorias autorizadas. Entre os brancos estão Collio Bianco (um corte, também com regras flexíveis), Chardonnay, Malvasia, Müller-Thurgau, Picolit, Pinot Bianco, Pinot Grigio, Ribolla Gialla, Riesling, Riesling Italico, Sauvignon Blanc, Friulano e Traminer Aromatico. Entre os tintos aparecem Collio Rosso (outro corte), Cabernet (corte com qualquer um deles), Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Nero.

“Exame oftalmológico” no Friuli

Na prática, porém, o centro da denominação está claramente nos brancos secos. Os vinhos a partir de Sauvignon Blanc tendem a apresentar maior carga aromática e textura, enquanto os elaborados a partir de Friulano costumam oferecer aromas mais delicados. Já a Ribolla Gialla ocupa um lugar importante tanto em versões mais clássicas quanto em maceradas, e Pinot Grigio mantém peso decisivo em termos de escala. O Collio Bianco, por sua vez, funciona como um espaço de interpretação mais livre, reforçando a diversidade estilística da região. Ao lado desse universo, o Picolit permanece como um vinho doce raro de altíssima qualidade, muito mais simbólico do que quantitativo.

Produtores de destaque

Os produtores do Collio podem ser agrupados em três grupos. Entre os clássicos, estão nomes como Venica & Venica, Russiz Superiore (Marco Felluga), Livio Felluga e Jermann. São produtores de maior porte, basicamente ligados à consolidação da imagem do Collio como região produtora de grandes brancos secos, precisos e longevos.

Em outra parte do espectro de produção está o grupo de produtores de vinhos macerados, como Gravner, Radikon e Damijan Podversic. Foi principalmente com eles que Oslavia passou a ser vista como um dos polos mais importantes do mundo para vinhos macerados de longa extração. Já entre os produtores mais contemporâneos, os destaques são Borgo del Tiglio, Raccaro, Edi Keber e Primosic, que revelam outra face do Collio atual.

Fontes: Disciplinare di Produzione della Denominazione di Origine Controllata dei Vini “Collio Goriziano” o “Collio”, Ministero delle politiche agricole alimentari e forestali; Cartella Stampa Doc Collio, Consorzio Tutela Vini Collio; Collio 2025 Presentazione, Consorzio Tutela Vini Collio; WSET Wines of the World, WSET; The DOC Collio, Tercic; Vinous; Jancis Robinson; Decanter; Vini DOC Friuli

Imagens: Arquivo pessoal

Mapas: Vini DOC Friuli

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